sexta-feira, 6 de novembro de 2015

DILMA, O DOBRO DO GASTO E ZERO DE EFICIÊNCIA

A presidente do Brasil e S.M. a Rainha Elizabeth II do Reino Unido

A presidente vai reduzir seu salário, do vice-presidente e dos 31 ministros a partir de novembro. Dilma Rousseff ganha R$ 26,7 mil mensais e deve perder 10%, pouco mais de três salários mínimos. O corte salarial no topo do poder, porém, é meramente simbólico num governo onde os gastos são crescentes.

O caso da Presidência da República é exemplar. Na última década, se tornou um agrupamento burocrático de dezenas de organismos, fundos e secretarias extraordinárias. Gastou R$ 9,3 bilhões no ano passado —210% mais que em 2005, já descontada a inflação do período. É um volume de dinheiro quase três vezes maior, por exemplo, que o gasto anual do Estado do Rio na manutenção da rede pública de saúde, com 60 hospitais (1.050 leitos de UTI). Ano passado, as despesas do núcleo administrativo diretamente vinculado a Dilma somaram R$ 747,6 milhões, recorde no primeiro mandato. Pouco mais da metade disso (R$ 390,3 milhões) foi usado para pagar assessoria e serviços prestados à presidente nos palácios onde trabalha e reside e durante as viagens, segundo dados da Secretaria de Administração da Presidência disponíveis no Portal da Transparência, do governo federal.

Dilma já custa para os brasileiros praticamente o dobro do que a Rainha Elizabeth II e a Família Real para os súditos britânicos. A monarquia consumiu, em 2014, o equivalente a R$ 196,3 milhões (observação da página, gasto esse que praticamente, ou completamente, se paga pela própria Coroa via turismo e outras atividades estimuladas pela simples existência do Trono), segundo relatório anual da Casa Real, tendo-se como referência a cotação da moeda (libra) no fim de agosto. Numa comparação republicana, o custeio do gabinete de Dilma equivale a 60% do escritório de Barack Obama. O presidente dos Estados Unidos gastou R$ 648 milhões com serviços na Casa Branca e na residência oficial, segundo relatório sobre a execução orçamentária no último ano. Em Washington, como em Brasília, parte das despesas presidenciais acaba dissimulada no orçamento. A diferença fica por conta da credibilidade sobre as contas dos dois governos e a eficácia do controle público.

Nos EUA, Congresso e organizações sociais mantêm ativa fiscalização. No Brasil, sobra desconfiança, e o controle é rarefeito. “Aqui, além da pouca transparência, o excesso de truques e maquiagens fez crescer em progressão geométrica o descrédito nas contas governamentais”, diz Gil Castelo Branco, da ONG Contas Abertas. Em Brasília, a rotina de Dilma fica circunscrita a um raio de 15 quilômetros: trabalha no Palácio do Planalto, mora no Alvorada e passa fins de semana na Granja do Torto, uma casa de campo. Logo cedo, a presidente passeia nos jardins do Alvorada, à margem do Lago Paranoá, entre araucárias e sibipurunas plantadas por Yoichi Aikawa, jardineiro do imperador japonês Hirohito, que doou o projeto paisagístico há mais de meio século. Caminha sobre um tapete vegetal três vezes maior que o Maracanã, com sutil variação de tons de verde derivada das gramas Esmeralda (Zoysia japonica), Batatais (Paspalum notatum) e São Carlos (Axonupus compressus). A irrigação e a jardinagem consomem R$ 4 milhões anuais.

Os prédios da Presidência abrigam multidões de servidores públicos, assessores contratados e a mão de obra alugada de secretárias, telefonistas, vigilantes, faxineiros e garçons, entre outros. Os serviços de manutenção somam R$ 220 milhões por ano. Vigilância e limpeza custam R$ 5,7 milhões anuais. Nas portarias, há um batalhão de vigias. Representam uma fração (R$ 1,5 milhão) de uma das maiores despesas do setor público: R$ 3 bilhões ao ano em policiamento privado, com elevada concentração em quatro grupos (Confederal, TBI, Albatroz e Santa Helena Vigilância). Ano passado, esse tipo de gasto superou os investimentos realizados por um conjunto de 33 órgãos, incluídos os ministérios do Esporte, das Comunicações e da Cultura. Há despesas mais prosaicas, como R$ 9,7 mil para quatro camareiras que lavam as roupas do vice-presidente Michel Temer, sob compromisso de “sigilo de informações”. E R$ 7,8 mil para tratamento semanal da piscina do Palácio do Jaburu, onde Temer mora. Recorrentes mudanças administrativas, produto da instabilidade nas relações da presidente com aliados, levaram à contratação permanente (por R$ 1 milhão por ano) de empresa especializada na montagem e desmontagem de paredes divisórias no Planalto.

Cada despesa nova leva uma justificativa pomposa. Exemplo: os R$ 39 mil pagos para encerar o piso de mármore do Planalto têm “o objetivo de manter a nobreza dos ambientes por onde circulam autoridades”, diz o contrato. O esmero burocrático se reflete na mesa do poder, com espaço para opções individuais, como a escolha do chefe de cozinha. Nem sempre dá certo. No governo Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, um sargento da Marinha foi enviado a Paris com a missão de aprender a cozinhar. Voltou, agradeceu e partiu para a aventura de um negócio próprio. Nas 28 copas, a prestação de serviços custa R$ 7,4 milhões. Por elas circulam 88 garçons, sempre em camisa branca, calça, paletó de dois botões e cinco bolsos, gravata-borboleta e sapatos pretos. Há 58 copeiras em calças sem pregas, blusa de mangas três-quartos, em microcrepon (do tipo anarruga), sob avental xadrez preto e branco, com viés nas laterais. Os uniformes são exigência contratual. A intensidade do movimento entre copa e cozinha varia conforme a predileção do governante por festas e homenagens. O governo Dilma foi de comemorações no primeiro mandato: gastou-se R$ 302,7 milhões, 40% mais que Lula em oito anos. Em 2014, foram R$ 77,3 milhões, média de R$ 213 mil por cada dia do calendário da reeleição.

Luxo e fartura ambientam as cozinhas dos palácios. Paga-se R$ 9 mil por banho restaurador dos utensílios em prata 925 (esterlina, com 92,5% de pureza). Os gastos com alimentação no Planalto somam R$ 16 milhões anuais. Desse total, uma fatia de R$ 1,3 milhão fica reservada para prover a despensa, os cardápios sob encomenda e a adega da presidente, com capacidade para 2.000 garrafas. Quase tudo é mantido em segredo. Aos curiosos, a presidência acena com um decreto (nº 7.724) assinado pela própria Dilma, em 2012, onde se lê: “As informações que puderem colocar em risco a segurança do presidente da República, vice-presidente e seus cônjuges e filhos ficarão sob sigilo até o término do mandato em exercício ou do último mandato, em caso de reeleição.”

Como nem os donos de segredos de Estado conseguem guardá-los, sabe-se que um dos mais caros cardápios é mantido à margem da contabilidade rotineira de copa e cozinha palaciana: custa R$ 2 milhões anuais o serviço de comida a bordo do avião presidencial. Já foi mais. Em 2006, Lula chegou a gastar R$ 3,7 milhões — mais que a conta dos cinco mil telefones da presidência naquele ano. Ele instituiu um padrão em voos, preservado por Dilma, com variedade de carnes (coelho assado, costeleta de cordeiro, rã, pato, picanha e peixe). O café da manhã a bordo custa R$ 58,60; a bandeja de frutas, R$ 102; cada canapé de caviar sai a R$ 7; camarão ou salmão defumado, a R$ 4,60.

Em viagens ao exterior, Dilma prefere hotéis às residências oficiais nas embaixadas brasileiras. Em junho, passou três dias numa suíte do St. Regis, em Nova York, decorada por joalheiros da Tiffany.
Depois, passou um dia em São Francisco, Califórnia, no hotel Fairmont, cuja suíte principal tem um mapa estelar em folhas de ouro contra um céu de safira. O custo médio das diárias nos EUA foi de R$ 36 mil. Para servi-la e à comitiva foram contratados 19 limusines, 15 motoristas, dois ônibus e um caminhão para transportar bagagens. Custou R$ 360 mil (o pagamento atrasou dois meses). Em Atenas, na Grécia, em 2011, a presidente gastou R$ 244 mil numa “escala técnica" de 24 horas — mais de R$ 10 mil por hora.

Da Matéria: DILMA CUSTA AOS BRASILEIROS O DOBRO DA RAINHA ELIZABETH II PARA OS BRITÂNICOS. Por: O Globo, Blog do Noblat

18/10/2015 - 07h10
José Casado, O Globo

MANIFESTO MONARQUISTA DE DOM LUIS MARIA (1913)

Dom Luis Maria de Orleáns e Bragança

“Brasileiros

Em seu manifesto de 12 de janeiro de 1896, os venerados chefes do Partido monarquista dirigiram à Nação as seguintes palavras:

‘A subversão do nosso regime político a 15 de novembro, rápida e instantânea como o efeito de um cataclismo, não permitiu que se lhe opusesse imediata resistência ativa... Suprimidas desde logo as liberdades públicas, as amplas liberdades sob as quais nasceu e vivia o Império Brasileiro, e mais tarde destruída ou reduzida ao silêncio a imprensa que se aventurou a moderadas censuras, era de fato inútil qualquer esforço para que a vontade nacional saísse de urnas eleitorais cavilosamente preparadas para a mais ousadas burlas por uma regulamentação “ad-hoc”.

Nestas circunstâncias, só restava aos monarquistas esperar pelas promessas da República, ruidosamente afirmadas na mesma ocasião em que se fazia retumbar por toda a parte a infamação da monarquia.

Se aquela (a república), apesar do vício original, entregue a si mesma, sem cooperação suspeita, nem o menor entrave dos adversários naturais, conseguisse mostrar-se mais benéfica, não haveria, a começar pela Família Imperial, um só obstinado que recusasse e deixasse de agradecer a melhoria.

Mas, decorridos quase seis anos (e hoje 126), a consciência pública, o fôro íntimo dos próprios republicanos de boa fé compara os fatos e só registra decepções e desastres.’


ANOS DE DESVARIOS

Essas palavras de justiça e de patriotismo, escritas em 1896, poderíamos repeti-las hoje, com a autoridade que lhes conferem mais dezoito anos de desvarios e de desmandos, dezoito anos de uma experiência desastrosa para as instituições implantadas no Brasil pelo ato inconsciente de alguns revoltosos. 

Pacientes e resignados, esperamos até agora a realização das sedutoras promessas e, embora com o coração a sangrar, assistimos, espectadores silenciosos, aos vexames sem conta infligidos à nossa Pátria estremecida. Hoje, porem, faz-se repentinamente sentir um sopro de reação contra tantas misérias; o povo, farto de ser explorado pelos próceres do atual regime (a república), volve saudoso as vistas para os tempos felizes do império; acudindo ao apelo dos seus chefes legítimos, os monarquistas erguem a cabeça. 

Chegou a hora de pedirmos contas à República, pondo nas conchas da balança os serviços que ela tem podido prestar ao país e os sacrifícios que ela lhe tem imposto.


O PROGRESSO DO IMPÉRIO

O movimento de 15 de novembro encontrou o Brasil em um período de inexcedível progresso material.

Extinta a chaga secular da escravidão, já se organizava o trabalho livre: repletos os cofres públicos, graças á excelente administração dos últimos governos, as finanças nacionais atingiram no ano que precedeu à queda do regime, a uma prosperidade nunca vista no Brasil; as invenções técnicas que caracterizam o fim do século XIX vinham dar um novo incremento a todas as indústrias; a eletricidade, a grande produtora da energia nos países dotados, como o nosso, de inesgotáveis forças hidráulicas, entrava então no domínio da utilização pública, atraídos pela maravilhosa ‘oportunidade’, os capitais estrangeiros começavam a afluir.

Debaixo de tão favoráveis auspícios, qualquer país – e mormente o Brasil, que, pode-se dizer, saía então da adolescência – tinha forçosamente de progredir a passos de gigante.


A SITUAÇÃO DA REPÚBLICA

Ora, em que se resumem os progressos tão gabados destes últimos anos de República? Uma simples frase o dirá: menos parcimonioso do que a monarquia, o novo regime não tem hesitado em gastar as largas milhares de contos para dourar a fachada do país.

Fiéis às nossas tradições de imparcialidade e de justiça não hesitaremos em reconhecer o valor da grande obra realizada pelo governo republicano – ou antes, por alguns dos seus representantes – na Capital Federal e em outros pontos mais em vista do nosso território.

Rodrigues Alves, Lauro Müller, Passos e Oswaldo Cruz fizeram do Rio a mais bela e uma das mais saudáveis cidades do mundo e por isso muito mereceram do Brasil.

Mas bastará isso para legitimar enorme aumento das despesas pública?

O estrangeiro que passa poderá deixar-se iludir. O brasileiro através do aparato arquitetônico do Rio, vê a miséria do vale do Paraíba (outrora tão opulento), o descalabro do interior tão em contraposição com o luxo das grandes cidades, a agonia do Norte sob o jugo férreo dos régulos que o dominam.

Digam-nos os nossos adversários que progresso as nossas principais indústrias tem realizado apesar do protecionismo desmedido que a república impôs.

Mostrem-nos o incremento da vida econômica dos nossos inúmeros sertões, ainda mais deserto hoje do que no tempo do império. Mostre-nos de que modo foram aproveitadas as extensas terras devolutas de que dispõem os Estados e que tanta importância têm para o desenvolvimento da imigração estrangeira, indisponível para a valorização rápida do nosso imenso território.

Se, apesar de tudo, alguns Estados do Sul prosperaram, essa prosperidade não é devida à ação dos respectivos governos, mas ao impulso incoercível das próprias energias do país e não raro à colaboração inteligente de estrangeiros.

Que nos tem dado a famosa Constituição de 1891, cópia servil e ininteligente de um sistema político contrário à nossa índole e aos nossos costumes?

A própria federação – boa em si e, aliás, já delineada no programa dos últimos ministérios do império – não trouxe senão desilusões. Em vez da autonomia e da liberdade esperada, a sua conseqüência imediata foi a constituição de um feudalismo medieval, indigno da nossa civilização. Nem parece que a luta contra as oligarquias, iniciada pelo atual governo, tenha dado melhores resultados. As revoltas sangrentas, fomentadas nos Estados, os bombardeios criminosos de cidades sem defesas, as intervenções brutais do poder central, se têm podido, em certos pontos, derrubar as dinastias locais, não mudaram o regime de tirania e de opressão, de fraude, de crime e de violência que, continua a lavrar por todo o país.

A justiça tão indispensável como a liberdade e talvez mais, outrora administrada por magistrados inamovíveis e independentes, educados no difícil e nobre ofício de julgar, passou mercê de sua descentralização para as mãos de juízes na maior parte improvisados, verdadeiros juízes de comissão, às ordens dos governos que os nomeiam e cuja côrte têm de acompanhar, no vai-vem dos movimentos políticos.

Os maiores crimes ficam impunes; na há responsabilidade para quem tem amigos no governo.

Assim é que não devemos estranhar a decadência do caráter nacional nestes últimos anos. Já se foram os tempos em que o homem probo, encanecido no labor honesto ou no serviço público, era geralmente acatado.

Joje, só o homem rico goza do respeito dos seus concidadãos. O utilitarismo propagou-se de tal modo na nossa sociedade, que, quando algum altruísta tem coragem de um gesto nobre e desinteressado, todos o contemplam com espanto para lastimá-lo ou mesmo escarnecê-lo pala falta de espírito prático

Que diremos das nossas finanças, outrora tão prósperas?

Apesar do aumento prodigioso das receitas, devido às riquezas inesgotáveis do país, o equilíbrio dos orçamentos vai-se tornando cada vez mais precário. A despesa cresce loucamente e mal se conhece a sua importância real, por falta de balanços claros. Esvai-se o produto de impostos exorbitantes, esvaiem-se os empréstimos contínuos, dificilmente negociados, sem cobrir os ‘déficits’ e sem deixar vestígios de melhoramentos úteis e remunerados. Ameaça-nos, como acabaram de bradar os jornais de maior prestígio da capital, a bancarrota iminente.

Nunca foi mais necessária, nem mais urgente uma severa economia, e, entretanto, avultam as sinecuras, as acumulações escandalosas, as missões inúteis ou mesmo contraproducentes, as encomendas extravagantes e mil outros desperdícios. Os únicos que poderiam exercer uma fiscalização benéfica sobre o esbanjamento dos dinheiros públicos, os membros do parlamento – o nosso parlamento outrora tão glorioso! – só cogitam em combinações políticas e em outras favoráveis aos seus interesses pessoais.

Devido a esta situação lastimável, o mal-estar aumenta no país inteiro. A carestia da vida, problema sério cuja solução é inadiável, subleva com razão, as classes populares; imensos são os alvitres lembrados para a debelação dessa crise, mas o governo não tem tempo para estudá-los. Os poderes públicos limitam-se a gastar, convencidos de que a desvairada política de melhoramentos artificiais bastará para fazer a riqueza do país.

A definição ideal da República sempre foi o governo de todos, por todos e para todos.

A República brasileira tem sido o governo de poucos contra todos e para poucos. Em um país essencialmente democrático como o nosso, a condição do povo não tem merecido a mínima atenção.

O problema operário, em parte resolvido, desde muitos anos pelas principais monarquias européias, nem foi ainda encarado no Brasil.

Imprevidente e cego, o governo espera de braços cruzados que, tornando-se intolerável a situação do trabalhador, apareça ameaçador, como na república vizinha, o espectro do socialismo anarquista.

O mesmo poderemos dizer da instrução pública, que deveria ser uma das primeiras preocupações de um governo que se diz progressista.

Enquanto na periferia do país se esbanjam os recursos nacionais, o analfabetismo e mais crasso continua a lavar nas zonas imensas de todo o interior.

Acabamos de dizer que para a nossa vida política o povo virtualmente não existe.

E não existe porque não tem instrução, porque não sabe ler nem escrever e conseqüentemente não exagera, não pensa e não vota.

É uma quantidade negativa, de que os políticos se servem para aumentar pela fraude, à bico de pena o número de suas hostes políticas.

Enquanto mesmo na Argentina, desde Sarmiento, o ensino público tem tomado prodigioso incremento, contribuindo em grande parte para a prosperidade que dá mostra a grande República do Prata, os nossos poderes públicos esperam placidamente que se realize, sem o seu curso, o milagre da desalfabetização. E ficamos com o quociente humilhante de 80%, que representa o elemento analfabeto de nossa população!

Filha de um pronunciamento militar, podia-se esperar pelo menos que a República dedicasse especial carinho à organização e ao aperfeiçoamento das nossas forças de terra e mar.

O antigo regime, digamo-lo francamente, não prestou a esse grave problema toda a atenção que ele merecia. Depois da campanha do Paraguai, luta gloriosa que patenteou ao mundo inteiro as qualidades guerreiras da nossa raça, teria sido natural que se aproveitassem os esforços realizados para dar ao nosso Exército a organização definitiva de que precisava.

As forças armadas ter-se-iam desse modo tornado, desde 1870, não só a garantia essencial da integridade e da coesão nacional, como também o sustentáculo o mais sólido das instituições monárquicas.

Não faltou quem vislumbrasse essa verdade. Apenas concluída a guerra, meu pai, o marechal Conde d’Eu, fez-se o advogado das valentes hostes à testa das quais, acabava de colher os lauréis de Peribebuy e Campo Grande. Os governos civis que presidiam aos destinos do país não compartilharam o seu modo de ver.

Nem foi concedida ao heróico Exército a volta triunfal ao Rio de Janeiro, que teria sido a consagração merecida das suas proezas.

Dissolvidos os quadros, a pretexto de economia, os seus efetivos foram restituídos à vida civil, sem brilho e sem honras.

Meu pai desanimou. Apesar da má vontade que o cercava, continuou a estudar os graves problemas da nossa defesa terrestre e naval.

O programa que ele apresentou, em avultado relatório, teria adotado a nossa Pátria de eficiência militar que a todo o bom patriota se afigura hoje indispensável.

A revolução interrompeu a sua obra.

A República prometeu maravilhas. Que vemos depois de decorridos 23 anos? Militarmente falando, a nação está desarmada, como nunca esteve nos tempos do império. Não temos Exército, nem Marinha dignos desse nome. Não temos soldados, não temos instrução técnica, não temos quartéis, nem mesmo hospitais.

Temos, é verdade, orçamentos. Só o Exército consome inutilmente 85 mil contos atuais. Mas uma anarquia profunda reina nas coisas da guerra. Aos ministros, escolhidos com fins meramente políticos, não sobra tempo para se ocuparem das mais urgentes reformas. As leis votadas – pró forma – não são executadas. O famoso serviço militar obrigatório, tão decantado pelos próceres do regime, ainda é um mito. Afora a guarnição do Rio, indispensável para as paradas da República, não existem unidades táticas organizadas, mesmo nas zonas fronteiras, tão importantes para a defesa nacional.

Materialmente falando, é possível que se tenha melhorado a condição dos oficiais. Não creio, porem, que o aumento de soldo (imposto aliás pelo encarecimento da vida), nem as rendosas comissões, nem as missões à Europa largamente retribuídas, compensem aos olhos dos meus briosos camaradas, o desanimo que lhes invade a alma, vendo a inutilidade dos seus esforços sob o ponto de vista militar.

Verdade é que temos generais cheios de valor e de preparo; temos uma oficialidade superior e subalterna ilustrada e disposta a trabalhar; mas faltam-lhes os meios de exercer utilmente a sua profissão, a orientação técnica e a direção superior. E por isso muitos, desacoroçoados, se atiram nos braços da política, ou aceitam as viagens de recreio que lhes são oferecidas à custa do país.

O mesmo se poderia dizer da nossa marinha – a gloriosa marinha de Riachuelo e Humaytá – que dói dentro da alma ver hoje desamparada e quase que inutilizada apesar dos sacrifícios enormes feitos para o seu aperfeiçoamento.

Temos couraçados que são os primeiros do mundo, possuímos possantes ‘destroiers’ e velozes ‘scouts’, temos uma oficialidade sob todos os pontos de vista digna de suas gloriosas tradições. Não temos tripulação. A disciplina, que é a base indispensável da eficácia militar, foi aos poucos sapada pelo regime da incoerência que nos domina.

A ignominiosa anistia concedida aos revoltosos de novembro de 1910, provocando no mundo inteiro motejos que nos fizeram corar de pejo, bastaria para incompatibilizar o regime vigente com qualquer obra de regeneração militar.

Ai do prestígio da nossa Pátria!

Já se foram os tempos em que os representantes do Império Brasileiro, pairando bem acima dos diplomatas do nosso continente, eram tão considerados na Europa, como os das maiores potências do velho mundo. Por muito que ela faça, nunca a República poderá inspirar à Europa, aos próprios Estados Unidos, ao mundo, enfim, a confiança que o império lhes inspirava.

Vejam os nossos adversários se desde 1889 foi o Brasil convidado uma só vez para árbitro entre outras potências. E, durante o reinado do meu avô, em 1874, eram os Estados Unidos e a Inglaterra que submetiam ao seu julgamento a questão do Alabama; mais tarde era a França que constituía árbitro das reclamações de seus nacionais pelos danos que haviam sofrido durante a guerra de secessão norte-americana; em 1884 eram os Estados Unidos, a França, a Alemanha, a Inglaterra e a Itália que lhe pediam para decidir sobre as indenizações que deviam ser concedidas em conseqüência das guerras do Pacífico... Hoje quem só lembraria, em idênticas circunstâncias, da República brasileira?


CRISE DO REGIME E NÃO DE HOMENS

Dir-me-ão os republicanos sinceros, convencidos da nossa decadência, que os estado lastimável a que temos chegado não se deve atribuir ao regime, que lhe parece excelente, mas ao pessoal que o representa.

Não compartilho este modo de ver. Em geral, dadas as instituições vigentes, a incoerência e a desmoralização que delas decorrem, julgo, pelo contrário, que a seleção dos homens de Estado que tem presidido aos destinos de nossa Pátria, não foi tão má com era de temer. Os presidentes, por exemplo, têm sido, o que é de admirar nos tempos em que vivemos, homens honestos, na maior parte inteligentes e preparados. Não lhes faltou a boa vontade na execução de seus planos de melhoramentos e de reformas, dos quais alguns, ao menos em teoria, se nos afiguram excelentes. Faltaram-lhes a autoridade e o tempo.

Levadas ao poder supremo, não pela vontade do povo – cuja livre manifestação se torna cada dia mais difícil – mas pelas facções políticas dominantes, eles sempre foram e hão de ser os escravos dos poucos recomendáveis promotores de suas candidaturas. Além disso, supondo mesmo que um presidente tivesse força suficiente e bastante grandeza d’alma para se abstrair das exigências do seu partido, claro é que um simples quadriênio – reduzido a um biênio pelas ambições dos aspirantes à sua sucessão – nunca bastará para a realização de um programa verdadeiramente profícuo. Acresce, enfim que, com o regime atual, o presidente há de ser quase sempre, quer queira, quer não, o representante de um Estado e não de toda a Federação. E isso é tão sabido que nas últimas eleições presidenciais, as competições bairristas tem tomado tamanho incremento que levam a receiar pela coesão nacional.


A SUPERIORIDADE DA MONARQUIA

Nisso vem a grande superioridade da Monarquia.

Um soberano tem o tempo diante de si.

Um soberano não tem partido, não tem ambição pessoais distintas da universalidade de Nação, não tem compadres, nem eleitores, não tem bairrismo, nem razão alguma que obrigue a pensar em outra coisa que não seja o bem público, o qual é forçosamente o seu bem pessoal, o dos seus antepassados, o dos seus descendentes, compreendidos com ele, na própria entidade nacional.

Um soberano não é civil, nem militar, mas ambas as coisas, sem preferência por nenhuma delas. É o Imperador ou Rei encarnação viva de toda as inspirações do povo.

Um soberano não é conservador, nem liberal nem socialista. Será uma coisa ou outra, no exercício de seu poder moderador, segundo o exigirem as circunstâncias e o bem do país.

Nunca, nem meu venerado avô, nem minha mãe, pensamos em deter a coroa contra a vontade da Nação, sempre lhes repugnou a idéia sequer da guerra civil, por mais nobre e desinteressantes que fossem os seus motivos. Hei de imitar o seu exemplo.

Como disseram os chefes do nosso partido em 1896, se a República, apesar do vício original, conseguisse mostrar-se mais benéfica do que o império, nunca recusaria, nem deixaria de reconhecer a melhoria. Se me for dado, indo ao Brasil, verificar a harmonia de sentimento nacional, com o dos seus atuais pseudo-mandatários, eu me resignaria ao silêncio e mesmo, se fosse necessário, ao ostracismo, para não perturbar a ordem interna do país que tanto amo.

Infelizmente, para a nossa Pátria, a experiência das instituições que lhe foram impostas não lhe tem trazido senão desastres e decepções. Se despimos o Corpo da Nação das roupagens ilusórias com que os nossos adversários a tem adornado, encontrá-la-emos cheia de fundas chagas que urge para lhe substituirmos a formosura primitiva.

Por isso continuamos a erguer bem alto o estandarte da restauração.

O Brasil não precisa somente de homens que compreendem a situação dos grandes problemas que se impõem ao nosso estudo. Precisa, sobretudo, de instituições que permitam a estes homens realizar os seus programas. Não necessitamos de estéreis lutas políticas, mas sim de idéias claras, lógicas, definitivas e proveitosas, que importam na satisfação exata de nossas conveniências atuais e futuras. O que nos importa não é a vitória de tal ou tal grupo, mas a formação de um Brasil grande, forte e próspero, de um Brasil onde tornem a desabrochar a honestidade o desinteresse pessoal, a justiça e a imparcialidade, onde se consorciem a ordem com a liberdade, o capital com o trabalho, as classes armadas com o elemento civil, o progresso com a probidade , o respeito ao Governo, com a inviolabilidade de todos os direitos garantidos pela Constituição.

Claro é que a magnitude de tal programa não pode caber no curto prazo indigitado aos presidentes da República para a realização de suas aspirações. Os republicanos tão bem o compreendem que nunca procuraram basear as candidaturas dos seus homens de Estado nos princípios de governo que eles representam.

Durante o longo período em que toda a Nação vive absorvida pelo grave problema da eleição presidencial, não se agitam idéias, nem programas.

Apregoam-se apenas os nomes dos candidatos com as probabilidades de vitória que lhes assegura a importância do grupo a que pertencem.

Se, como desejam alguns, a República parlamentar viesse substituir o regime presidencial, o mal seria ainda maior. Em vez de presidentes de quatro anos, teríamos ministérios de quatro meses. Sem o contrapeso indispensável de um forte poder moderador, o parlamentarismo conduziria fatalmente o país a completa anarquia política de que já dão exemplos outras repúblicas sul-americanas.


A MONARQUIA NÃO É UM PARTIDO

A monarquia não é um partido – é uma aspiração nacional.

Nós, os monarquistas, não exibimos nomes, mas idéias claras, definitivas. Tal é o nosso desprendimento que reconhecemos francamente para o império restaurado a necessidade de chamar um grande número de colaboradores do atual regime, homens de real valor, aos quais só a instabilidade das instituições tem inibido de prestar ao país os relevantes serviços de que são capazes.

Ao contrário dos republicanos, temos um programa já delineado em nosso primeiro manifesto e que se pode resumir em poucas palavras:

Monarquia hereditária, sob a forma federativa; Constituição e reorganização de um exército e de uma marinha proporcionais à população do nosso vasto território e às nossas dilatadas costas marítimas, e vias fluviais; luta contra o analfabetismo pela instrução primária obrigatória; justiça unitária e independente; desenvolvimento da Viação; expansão do comércio e da indústria; fomento de imigração e de grandes empresas estrangeiras (ressalvados os direitos dos atuais habitantes do país); delimitação exata das atribuições dos três poderes; enfim, a mais ampla liberdade eleitoral, o respeito dos direitos das minorias, e a formação de partidos sólidos com programas definidos, superiores às subalternas considerações de interesse pessoal.

Esse programa, esperamos realizar, chamando a nós todos os brasileiros de boa vontade, sem distinção de partido, preocupados unicamente com o bem do país com o seu desenvolvimento material, intelectual e moral.


À DISPOSIÇÃO DA PÁTRIA

Brasileiros,

A lição tremenda de 20 anos de perseverança no trilho do erro e do desvario, está a indicar que as instituições vigentes estão falidas e que dentro delas não há salvação para a nossa Pátria.

A República está morta, não por nós monarquistas, reduzidos, durante longos anos à mais lastimável apatia, mas pelos próprios republicanos. A nossa única propaganda tem sido evidência dos fatos, a força da verdade.

Se, livres de preocupações patrióticas, nos devêssemos contentar com a abolição de um regime detestado, só teríamos que cruzar os braços e esperar.

Há, porem, grandes interesses nacionais de ordem moral e econômica que correm o risco de ser sacrificados se continuarmos a ficar arredados de toda discussão nas coisas públicas.

Para que a restauração seja benéfica, para que ela não venha erguer-se sobre ruínas, devemos apressar o seu advento por todos os meios de que dispomos. Para realizar quanto antes o nosso ideal, contamos com o valoroso povo brasileiro, que nas crises difíceis que nosso país já atravessou, sempre soube guardar intactas a integridade e a honra nacionais.

Sem dúvida não será das urnas eleitorais que sairá a vontade nacional. As qualificações fraudulentas, a falsidade, o extravio criminoso das cédulas, as atas apócrifas, as escandalosas apurações, tudo isso, bem sabe o país, faz parte dos costumes políticos da República. As boas causas, porem, tem força intrínseca, e tão grande que, sem o concurso de uma imprensa partidária, sem propaganda persistente e metódica, assistimos hoje ao renascimento triunfante da idéia monarquista, considerada, ainda há poucos anos, como mera utopia.

Há momentos na vida de um povo em que, apesar da fraude e da tirania, a vontade nacional surge impetuosa, invencível, triunfadora.

Sem recomendar aos meus amigos a violência e menos ainda apregoar a guerra civil, sempre desastrosa, espero que, no momento preciso, nós, os monarquistas, saberemos ter gesto viris que necessários, por aclamação do povo, nos foi outrora atribuído.

Quanto a mim, colocado por minha mãe, à testa do nosso partido, representante, depois dela, do principio monárquico o Brasil, estarei à disposição de nossa Pátria para desempenhar o papel que, por aclamação do povo, nos foi outrora atribuído.

Para cumprir a meu dever, dever que resulta da própria história brasileira, que justificou, justifica e justificará os nossos direitos dinásticos, estou pronto a todos os sacrifícios, inclusive ao da própria vida.

Deus nos preste seu auxílio para o maior bem do Brasil, nossa pátria estremecida.

Montreux, 6 de agosto de 1913.

Luiz de Bragança”

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

S.S. O PAPA LEÃO XIII E S.A.I. A PRINCESA DONA ISABEL

A Princesa Imperial e S.S. o Papa
Ao fundo, a Princesa Imperial Regente assina a Lei Áurea

O Papa Leão XIII, contemporâneo da Princesa Dona Isabel do Brasil, premiou-a com a Rosa de Ouro, por ocasião da abolição da escravatura. Trata-se da primeira homenagem de um Papa a uma brasileira! Trata-se, inclusive, da única homenagem que uma brasileira recebeu do Sumo Pontífice até hoje.

Para tal agraciação, o próprio Papa redigiu uma carta para a Princesa Imperial.

Leão XIII, Papa

À muita amada em Cristo Filha Nossa, Saúde e Benção Apostólica.

As preclaras virtudes que adornam Tua pessoa e as brilhantes demonstrações de singular dedicação que Nos deste a Nós e a esta Sé Apostólica, pareceu-Nos mereceriam sem dúvida um testemunho particular e insigne de Nosso Apreço e paternal afeto para contigo.

Para te apresentarmos porém esse testemunho, nenhuma oportunidade mais favorável podia dar-se, conforme entendemos, do que a atual. Com efeito, novo esplendor acaba de realçar ainda mais os Teus louvores por ocasião da Lei que aí foi recentemente decretada e por Tua Alteza Imperial sancionada, relativa àqueles que, achando-se nesse Império Brasileiro, sujeitos à condição servil, adquiriram em virtude da mesma lei a dignidade e os direitos de homens livres.

Assim, pois, muito amada em Cristo Filha Nossa, Nós te enviamos de mimo a Rosa de Ouro que, ao pé do altar, consagramos com a prece apostólica e os demais ritos sagrados, consoante a usança antiga de Nossos Predecessores.

Por esta razão investimos do caráter de Nosso Delegado apostólico ao amado Filho Francisco Spolverini, Nosso Prelado Doméstico e Protonotário Apostólico, que exerce as funções de Internúncio e de Enviado extraordinário Nosso e desta Santa Sé, junto ao muito amado em Cristo Filho Nosso Pedro II Imperador do Brasil, e na ausência dele junto à Tua Alteza Imperial, com o fim de levar-Te a referida Rosa e de exercer o honrosíssimo ministério de fazer-Te a tradição dela, observando as sagradas cerimônias do estilo.

Nesse mimo, porém, que Te ofertamos, é desejo Nosso que Tua Alteza Imperial não olhe para o preço do objeto e seu valor, mas atenda aos mais sagrados mistérios por ele significados. Assim é que nessa flor e no esplendor do ouro se manifesta Jesus Cristo e sua suprema Majestade. É Ele que se denomina a flor do campo e o lírio dos vales. Na fragrância da mesma flor se exibe um símbolo do bom odor de Cristo, que ao longe rescendem todos os que cuidadosamente imitam as suas virtudes.

Daí é impossível que o aspecto deste mimo não inflame cada vez mais o Teu zelo em respeitar a religião e em trilhar a vereda árdua, sim, mas esplêndida da virtude.

No entanto, implorando toda a sorte de prosperidades e venturas para Ti, e todo o Império Brasileiro, muito afetuosamente no Senhor outorgamos a Benção Apostólica a Ti, muito amada em Cristo Filha Nossa, e à Tua Imperial Família.

Dado em Roma, junto a São Pedro, sob o anel do Pescador, no dia 29 de maio do ano de 1888, IIº no Nosso Pontificado.

Cardeal Carlo Nocella.

O Brasil foi um país digno de um Império, de reconhecimento mundial e de admiráveis feitos. A Princesa Isabel foi a única brasileira a receber tal homenagem. E uma honraria como essa será impossível de ser ofertada aos nossos governantes nos dias atuais.

A ROSA DE OURO DA PRINCESA IMPERIAL

DEUS SALVE O BRASIL!

ARLINDO VEIGA DOS SANTOS - “SEM REI NÃO HÁ UNIÃO NACIONAL”

Veiga dos Santos

Arlindo Veiga dos Santos foi um intelectual, poeta, escritor e líder político brasileiro. Fundou e presidiu a Ação Imperial Patrianovista Brasileira, uma organização monarquista que teve inserção em vários estados brasileiros, e a Frente Negra Brasileira. Sendo uma das maiores lideranças da população afro-brasileira. Teve contato com integralistas brasileiros como Plínio Salgado, embora não tenha chegado a fazer parte do grupo. Arlindo também foi professor de latim, inglês, português, história, sociologia e filosofia. Teve por princípio ideológico recusado qualquer cargo público, por ser monarquista e ser contra a republica, como quando recusou o convite para ser secretário de educação de São Paulo em 1930. Foi considerado uma das principais lideranças negras na primeira metade do século XX. Foi um grande ativista político, possuiu importantes postulados ideológicos à frente do movimento negro e monarquista.

Veiga dos Santos reificou a tradição de um setor da população negra brasileira a manter, no período republicano, simpatia pela monarquia. Arlindo Veiga dos Santos, um negro, chefe geral patrianovista, defensor da religião, pátria e raça, em plena década de 1930, escreveria e distribuiria um boletim vociferando aversão à forma de governo republicana. Um líder negro saudosista do sistema monarquista. Respeitado pela elite intelectual, aliado à luta política anti-racista, Veiga dos Santos desenvolveu uma ativa produção intelectual. Santos teve uma trajetória de vida pautada pela perseverança e abnegação. Arlindo Veiga dos Santos ainda é um líder negro razoavelmente desconhecido dos anais da história. Este dado é um indicador do quanto a produção acadêmica no Brasil não preza pela diversidade racial e permanece preterindo ou escamoteando alguns personagens negros. Veiga dos Santos é objeto de uma investigação histórica ou sociológica.

Um dos participantes de maior destaque da vida cívica em São Paulo durante a década de 1920, foi Arlindo Veiga dos Santos. Ainda adolescente, revelou talento literário e jornalístico, tanto escrevendo poesias quanto colaborando em algumas publicações locais. Transferiu-se para São Paulo, onde fez curso universitário na Faculdade de Filosofia e Letras de São Paulo. Nesta instituição, concluiu o curso em 1926. Destacou-se precocemente na vida acadêmica, tornando-se colaborador da revista de Filosofia daquela instituição. A religião influenciou imensamente a formação ideológica de Veiga dos Santos. Foi um carola mariano muito aplicado. Levava uma vida ascética. Veiga dos Santos colaborou ou dirigiu alguns jornais Católicos. Em 3 de março de 1928, em conjunto com alguns amigos, Veiga dos Santos fundou o Centro Monarquista de Cultura Social e Política Pátria-Nova. Fundada no princípio de que a instauração do III Império seria a salvação para todos problemas do Brasil.

A grande obra da ação negra no Brasil deve começar pela família pois que é ela a célula-mãe de toda a sociedade civil. É a família a união do varão e a esposa com seus filhos, debaixo do governo do varão. É ela o protótipo da sociedade política ou estado mais perfeito, isto é monarquia”.

Veiga dos Santos passava privações materiais e tinha até dificuldade de alimentação. Iniciava e encerrava as reuniões do CMCSP Pátria Nova com uma oração, e frisava que o próprio movimento de defesa do III Império nasceu “sob a inspiração da Santíssima Trindade”. Em 1932, essa organização reformou os estatutos e se transformou em Ação Imperial Patrianovista Brasileira.
Abominava os partidos políticos, considerados nefastos porque representavam várias facções. Na sua concepção, a solução para as mazelas do país, tais como: a desonestidade, a imoralidade, os erros políticos, econômicos, a inflação, a impunidade, só dependia da instauração de um Estado Monarquista dotado de um governo forte. No auge do movimento patrianovista, especulou-se que o herdeiro presuntivo do trono brasileiro, D. Pedro Henrique de Orleans e Bragança, confabulava nos meios monarquistas. A Casa de Bragança chegou a manter contato com o chefe geral patrianovista, conforme a carta do próprio D. Pedro Henrique:

Agradeço ao ilustre Dr. Veiga dos Santos e aos seus valorosos colaboradores o inestimável serviço prestado ao Brasil e à Monarquia, estudando e organizando o plano da ‘Orgânica’, sob cuja bandeira por sem dúvida se unirão todos quantos almejam ver instalados no Brasil o regime da liberdade, de justiça, de honestidade, que fez, no passado, a grandeza de nossa terra e que, no futuro, proporcionará à nossa gente dias de paz, de concórdia, de felicidade e de progresso”.

Após 1945, o herdeiro presuntivo do trono brasileiro passa a residir no país e se aproxima da AIPB, realizando várias visitas à sua sede em São Paulo. O movimento se expandiu para mais de quinze estados do país. Entretanto, em 1937, Getúlio Vargas liderou um golpe de Estado (coisa comum na república brasileira), instalou um regime ditatorial batizado de Estado Novo, e colocou todas as organizações políticas na ilegalidade. Desse modo, chegou ao fim a primeira fase do movimento patrianovista. 

Um outro campo de atuação de Veiga dos Santos foi a luta pela elevação moral, política e social da população negra. Desde a década de 1920 engajou-se no movimento negro organizado, escrevendo para os jornais da raça e se empenhando na construção das entidades negras. Arlindo Veiga dos Santos, um “doutor em filosofia”, um “alto pensador”, “sabotado” no nosso país por uma “autoridade invisível”, mas conhecido quando se “passa a fronteira do Brasil”. Carismático e eloquente, Veiga dos Santos conquistou a admiração dos afiliados da FNB. Em determinado panfleto de agitação, escreveu: “Meus irmãos negros! Viva a raça!”.Em 1955, após a reativação da Ação Imperial Patrianovista Brasileira, publicou o jornal "Monarquia". Órgão da Chefia Geral Patrianovista, trazendo em letras garrafais o seguinte slogan: “SEM REI NÃO HÁ UNIÃO NACIONAL”.

Veiga dos Santos era culto, dominava várias línguas. Na qualidade de intelectual, poeta e escritor, Veiga dos Santos é autor de diversas obras, mereceu a menção honrosa da Academia Brasileira de Letras. Alguns até asseguram que Veiga dos Santos era mais conhecido no exterior que em sua “pátria”. Na concepção deste dirigente negro, a república brasileira tem uma espécie de índole escravocrata, além de que “divide” os “irmãos da mesma Raça”, ao passo que a monarquia teria um valor providencial para o negro. O patrianovismo de Veiga dos Santos preconizava a monarquia com um Imperador responsável, que reinasse e governasse, um estado imperial orgânico de base municipal, um estado em que a representação se faz pela família e pelo trabalho. Por intermédio dos sindicatos profissionais e das corporações sociais, econômicas e culturais, dentro de uma instância maior, a orgânica imperial, garantiria-se o bem estar da nação. A definição de monarquia orgânica.

Arlindo Veiga dos Santos é um exemplo emblemático da consciência dividida da intelectualidade negra brasileira: se horizontalmente ele tem uma mensagem étnica de protesto, ou de contestação à situação do negro no Brasil, verticalmente a sua vivência reproduz os padrões e valores da civilização, da cultura e dos postulados religiosos, políticos e ideológicos. A monarquia foi melhor para os negros. Durante a monarquia sobressaíram várias personalidades negras. Em todo período republicano, não se sobressaiu nenhum grande homem negro. Os que são apontados, se fizeram no tempo da monarquia. Veiga dos Santos deu continuidade a tradição que, por sinal, se estende até os dias de hoje. Afinal, não podemos esquecer que no plebiscito de 1993, para decidir qual era a melhor forma de governo, alguns expoentes da comunidade negra no país fizeram campanha publicitária em prol da monarquia, como a atriz Zezé Mota, os cantores Jards Macalé, Sandra de Sá e a sambista Dona Zica, então liderança do Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira da Mangueira.

As palavras de ordem de Arlindo Veiga dos Santos permanecem vivas no imaginário de muitos brasileiros. Viva a nova Monarquia Brasileira!

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

MEMÓRIAS DO EXÍLIO

O velho Pedro, expulso de sua Pátria, coisa que ele mais amava

Ao chegar a Portugal, como exilado, Dom Pedro II ouviu de um jornalista:
— Vossa Majestade aqui não é um proscrito. Todos vos estimamos, respeitamos e reverenciamos.
O povo nas ruas de Lisboa, clamavam “Viva o magnânimo!”. O Conde Afonso Celso narra a visita de condolências que ele e seu pai, o Visconde de Ouro Preto, fizeram a D. Pedro II por ocasião da morte da Imperatriz:

Era modestíssimo o seu quarto”. A um canto, cama desfeita. Em frente, um lavatório comum. No centro, larga mesa coberta de livros e papéis. Um sofá e algumas cadeiras completavam a mobília. Tudo frio, desolado e nu. D. Pedro II do Brasil não aceitou a ajuda financeira de seu sobrinho-neto D. Carlos I, rei de Portugal. D. Carlos I lhe ofereceu voluptuosa quantia e um palácio para residir sem custos. Mas Pedro II sabia que ali não era o seu lugar, não seria ético em sua visão.

Os joelhos envoltos num cobertor ordinário, trajando velho sobretudo, D. Pedro II lia, sentado à mesa, um grande livro, apoiando a cabeça na mão. Ao nos avistar, acenou para que nos aproximássemos. Meu pai curvou-se para beijar-lhe a mão. O Imperador lançou lhe os braços aos ombros e estreitou-o demoradamente contra o peito. Depois, ordenou que nos sentássemos perto dele. Notei lhe a funda lividez.

Houve alguns minutos de doloroso silêncio. Sua Majestade o quebrou, apontando para o livro aberto e dizendo com voz cava:
Eis o que me consola.
Vossa Majestade é um espírito superior. Achará em si mesmo a força necessária.

D. Pedro não respondeu. Depois de novo silêncio, mostrou-nos o título da obra que estava lendo, uma edição recente da “Divina Comédia”. Então, com estranha vivacidade, pôs-se a falar de literatura, a propósito do livro de Dante Alighieri. Mudando de assunto, discorreu sobre várias matérias, enumerando as curiosidades do Porto, indicando-nos o que, de preferência, deveríamos visitar. Não aludiu uma única vez à Imperatriz.

Só ao cabo de meia hora, quando nos retirávamos, observou baixinho:
A câmara mortuária é aqui ao lado. Amanhã, às 8 horas, há missa de corpo presente.

Saímos. No corredor, verifiquei que o meu chapéu havia caído à entrada do aposento imperial. Voltei para apanhá-lo."


Pela porta entreaberta, presenciei cena tocantíssima: Ocultando o rosto com as mãos magras e pálidas, o Imperador chorava como um menino; por entre os dedos escorriam lhe as lágrimas, que caíam sobre as estrofes de Dante."

REINO DA SUÉCIA x REPÚBLICA DO BRASIL: 5 PONTOS

S.M. a Rainha Silvia da Suécia e a presidente do Brasil

Veja os cinco principais privilégios e as diferenças entre Brasil e Suécia No país escandinavo, juízes vão trabalhar de bicicleta e deputados moram em apartamentos cujo tamanho máximo não passa de 50 metros quadrados.

Num Reino tão, tão, distante chamado Suécia, na Europa, privilégios não são atrativos para que alguém vire político ou magistrado. Juízes vão trabalhar de bicicleta e deputados vivem em apartamentos pequenos, equivalentes a um imóvel de classe média, com no máximo 50 metros quadrados. A diária de um deputado que decide viajar para visitar as bases, no país escandinavo, só dá para comprar uma pizza e um refrigerante. É uma realidade bem diferente da vivida no Brasil, onde os parlamentares são tratados como "excelências", têm motorista particular, apartamentos funcionais de quase 200 metros quadrados, banheira de hidromassagem e, de quebra, foro privilegiado, o que impede que sejam processados por crimes comuns. Veja abaixo, as principais diferenças entre os dois países. A Suécia é uma monarquia, mas parece que os reis estão abaixo do Equador, lá no Congresso Nacional. 

  • DINHEIRO
Na Suécia, os deputados não ganham aposentadoria após alguns poucos anos de trabalho; No Brasil, se uma liderança tiver apenas um mandato e perder a eleição, ele pode se aposentar com o salário integral pago pela Câmara, caso tenha 35 anos de contribuição em outra área profissional ou 60 anos de idade. O salário dos deputados brasileiros é de R$ 33,7 mil. A remuneração de um deputado sueco é de US$ 9 mil, equivalente a R$ 35 mil, mas um professor daquele país, por exemplo, ganha metade do seu salário. Caso um deputado sueco tenha bases fora da capital, ele pode receber uma diária que dá para comprar, por exemplo, uma pizza e um refrigerante.  Os deputados suecos só começaram a receber salários a partir de 1984 (obs da página: e no Brasil a partir da república, no Império não eram remunerados);

  • CONDENAÇÃO
Na Suécia, os políticos podem ser processados e condenados como qualquer cidadão. No Brasil, os deputados, senadores, presidente e vice, por exemplo, têm foro privilegiado e só podem ser julgados e condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF);

  • APARTAMENTOS
Na Suécia, os imóveis oficiais dos deputados têm aproximadamente 45,6 metros quadrados, os menores possuem 16,6. No Brasil, a Câmara disponibiliza 432 imóveis para suas excelências, entre apartamentos e casas. Como o número é menor do que o de deputados, 513, os que não conseguiram imóveis recebem
um auxílio-moradia de até R$ 4.253,00 por mês. Os imóveis têm em média 200 metros quadrados, estão avaliados em aproximadamente R$ 2 milhões. Alguns possuem banheira de hidromassagem;

  • ASSESSORES
Na Suécia, os deputados são auxiliados por funcionários do Congresso, que atendem a vários parlamentares e não a um único gabinete. Eles não têm direito a funcionários particulares. No Brasil, as cotas parlamentares são disponibilizadas para suas excelências e variam conforme a distância que morem de Brasília. No geral, as cotas podem ser usadas com despesas de passagens aéreas; telefonia; manutenção de escritórios de apoio à atividade parlamentar; fornecimento de alimentação ao parlamentar; hospedagem; outras despesas com locomoção, fretamento de aeronaves, entre outros.  A cota mais alta é paga aos deputados de Roraima, de R$ 45.240,67 por mês. A mais baixa é do Distrito Federal: R$ 30.416,80;

  • GABINETES
Os deputados da Suécia não possuem banheiro privativo ou copa com cafezinho. Eles lembram salas de um funcionário de repartição pública. Eles geralmente usam a própria casa, sede do partido ou biblioteca pública para trabalhar ou se reunir com lideranças. No Brasil, os gabinetes de deputados são distribuídos por sorteio. No anexo IV, eles têm entre 39 e 40 metros quadrados e dispõem de banheiros individuais. Os menores ficam no anexo III, com 33,7 metros quadrados e sem banheiros. Estão instalados em um prédio onde não há elevadores.

Fonte: Claudia Wallin, autora do livro “Um país sem excelências e mordomias”, e Câmara dos Deputados

Aline Moura - Diario de Pernambuco
Publicação: 01/11/2015 17:03 Atualização: 01/11/2015 20:44

domingo, 1 de novembro de 2015

O CURIOSO CASO DE NORTON, "IMPERADOR" DOS EUA

Joshua Abraham Norton, Imperador dos Estados Unidos e Protetor do México

Oficialmente, os Estados Unidos tiveram trinta e sete Presidentes diferentes¹. Mas em um certo momento nosso país também teve outro chefe de estado além de um Presidente – ele na realidade teve um imperador.
Apesar de poucos livros de história mencionarem seu nome, na metade do século XIX Joshua Abraham Norton proclamou a si mesmo Norton I, Imperador dos Estados Unidos e Protetor do México. Por quase um quarto de século ele governou seu vasto domínio com exemplar benevolência e gentil bom senso. Diferente de todos os nossos Presidentes, Joshua Norton não era cidadão natural dos Estados Unidos. Nascido na Inglaterra em 1819, ele emigrou com seus pais para a África do Sul onde passou sua juventude. Não foi até 1849, como um jovem homem de 30 anos, que ele imigrou para sua futura capital – São Francisco.

Norton era diferente da maioria da época. Ele não veio com os bolsos vazios explorar o recém descoberto ouro da Califórnia. Ao invés disso, é dito que ele chegou ao porto com $40,000. Com esse capital ele se estabeleceu nos negócios de corretagem de imóveis e importação e em algum tempo havia transformado essa quantia considerável em uma fortuna respeitável. Aplicando práticas sagazes de negócios a uma variedade de empreendimentos, é dito que Norton tinha acumulado por volta de um quarto de milhão de dólares em 1853. Infelizmente, a ruína financeira de Joshua veio de maneira tão rápida quanto seu sucesso. Prevendo uma grande demanda de arroz dos muitos trabalhadores Orientais da cidade, ele comprou o quanto pôde de arroz em uma tentativa de monopolizar o mercado local. Como ele previu, o preço do arroz disparou. Mas antes que ele pudesse tirar alguma vantagem dos preços inflacionados, dois navios carregados com mais arroz chegaram ao porto. Suas vastas posses perderam todo o valor, ele entrou em falência. Durante o litígio que se seguiu, Norton perdeu tudo que tinha. Ele desapareceu por algum tempo, deixando muitos a cogitar sobre que destino levou. Quando ele finalmente reapareceu em 1857, era patente que além de ter perdido toda sua fortuna, ele também tinha perdido seu equilíbrio mental e sua identidade.

Joshua A. Norton retornou para São Francisco não como um comerciante falido, mas como ninguém menos que o Imperador dos Estados Unidos, e anunciou seu governo emitindo uma proclamação oficial. Com a cooperação do editor do San Francisco Bulletin, o decreto de Norton tornou-se conhecido por seus súditos em 17 de setembro de 1859.

“No imperativo pedido e desejo da larga maioria dos cidadãos destes Estados Unidos.” “Representantes de diferentes estados,” Norton ordenou, deveriam se reunir no Salão Musical de São Francisco no seguinte mês de fevereiro “para fazer tais alterações nas leis existentes na União de maneira a melhorar os males sob os quais o país está trabalhando e portanto causar confiança de existir, tanto em casa quanto no exterior, em nossa estabilidade e integridade.”

Aparentemente, tal reunião nunca aconteceu; não obstante, Norton assumiu sua elevada posição. Vestido em um folgado uniforme militar azul e desbotado, completo com dragonas douradas e botões brilhantes de bronze, Norton passou a pavonear-se pelas ruas de São Francisco como se ele realmente governasse a cidade. Apesar de ele usar outros chapéus durante seu reinado, era um chapéu de pele de castor que Norton parecia preferir. Penas alegremente coloridas no topo do já alto chapéu adicionavam algumas polegadas à sua um tanto atarracada figura. Mas eram o porte real e sua atitude em si que faziam dele a impressionante figura que era. Norton parecia e agia em todos os pontos como um rei, mesmo se algumas vezes sua vestimenta real não servisse tão bem e fosse um tanto ruim para vestir. Com uma espada cerimonial ao seu lado e um guarda-chuva ou bengala como seu cetro, o monarca barbado passeava por seu domínio. Durante sua patrulha diária das ruas de São Francisco Norton se certificava de que todas as ruas estavam desobstruídas. Ele inspecionava a polícia para ver se estavam em serviço. Ele checava o progresso dos reparos necessários nas ruas, inspecionava prédios em construção, e no geral fazia com que todos os regulamentos da cidade fossem aplicados.

Norton por vezes era incomodado por alguns provocadores impertinentes, mas ademais os cidadãos de São Francisco adotaram o excêntrico ex-comerciante e efetivamente concederam a ele o real tratamento por ele exigido. Ele era admitido em restaurantes como convidado dos proprietários. Quando sua fama se espalhou os donos de restaurantes na verdade competiam por sua patronagem e aprovação real. Transporte era provido sem custos. Em dado momento a cidade passou a prover uma quantia anual para os aparatos do Imperador.  Para cuidar de quaisquer outras necessidades físicas de sua majestade, foi permitido a Norton emitir títulos, coletar taxas de seus súditos, ou descontar suas próprias ações (pagáveis “pelos agentes da nossa Propriedade Privada, no caso de o Governo de Norton Primeiro não manter-se firme”), impressas sem custo por tipógrafos locais. Como um ditador sábio Norton tinha o cuidado de não impor encargos indevidos a seus súditos. Suas necessidades eram modestas, portanto as demandas periódicas por assistência financeira eram conservadas a um mínimo.

 
Os cidadãos da jovem cidade fizeram com que o Imperador Norton fosse bem tratado, mas eles também foram um pouco mais longe. Eles mais do que alimentaram suas ilusões. Eles até mesmo pareciam orgulhosos de que sua cidade tivesse a honra de ser sua real capital. Fosse com uma saudação ou uma reverência quando passavam por ele na rua, eles universalmente deram ao Imperador o tributo por ele esperado. Eles até o listaram no diretório da cidade como “Norton, Joshua (Imperador), dwl. Hotel Metropolitano”. Foi permitido a ele revistar os cadetes da Universidade da Califórnia. Deram a ele o lugar de honra em peças, concertos, palestras públicas e outras questões cívicas. O departamento de polícia – o “Constabulário Imperial” de Norton – reservou uma pequena cadeira para ele na delegacia e até o favoreceu para marchar na frente de sua parada anual. 

Quando Norton saía pelas ruas de São Francisco, sua corte real de dois cães vira-latas quase sempre estaria por perto. Famosos pela capacidade de manter a população de ratos sob controle, Bummer e Lazarus eram companhias constantes. Como o próprio Imperador, eles logo acharam o caminho para os corações dos cidadãos de São Francisco. Quando um agente novato da carrocinha levou Lazarus por engano uma vez, uma multidão enraivecida protestou vigorosamente; e os oficiais da cidade rapidamente anunciaram que os cães teriam passe-livre para andar pela cidade. Mas apesar de sua liberdade, eles pareciam preferir seguir o Imperador. Nos balcões de almoço gratuito, especialmente, eles podiam ser vistos nos calcanhares de seu rei enquanto esperavam que ele os atirasse alguns pedaços selecionados. Norton gozava dos poderes e privilégios cabíveis a um imperador, mas ele fazia mais do que simplesmente aceitar o tributo de seus súditos. Norton I era um monarca trabalhador. Conquanto muito de seu tempo fosse gasto inspecionando seu domínio, ele nunca renegava o trabalho burocrático. Durante seu reinado Norton emitiu uma grande variedade de documentos reais, e, como súditos reais, os editores de jornais seguiam suas ordens e os imprimiam.

Na cena local, Norton certa vez emitiu uma proclamação para assegurar que o respeito merecido fosse dado à sua amada capital. “Qualquer um após devido e próprio aviso,” ele proclamou , “for ouvido proferir a ventral palavra ‘Frisco’, que não possui garantia linguística ou qualquer outra, deverá ser considerado culpado de um Alto Delito”. A penalidade por não cumprimento era de 25 dólares. A proclamação obviamente se provou difícil de aplicar, mas muitos nativos de São Francisco até hoje a obedecem. Aparentemente, Norton I pode ter perdido contato com a realidade, mas seus objetivos altruístico e aspirações para seu país adotivo – e sua compreensão sobre o que o país precisava – eram notáveis.

No início de julho de 1860 Imperador Norton viu problemas se formando entre o norte e o sul e declarou que a União se dissolvesse pela duração da emergência. Ele queria arbitrar a Guerra Civil, mas ninguém pareceu inclinado a aceitar sua generosa oferta. Em 1869 ele mostrou uma surpreendente visão quando ordenou que uma ponte fosse construída através da Baía de São Francisco. As pessoas riram de sua proposta ridícula, mas 60 anos mais tarde a Oakland-San-Francisco Bay Bridge virou realidade. Atualmente uma placa honra a sabedoria do Imperador: “Pare viajante, e seja grato a Norton I… cuja sabedoria profética concebeu e decretou a construção da ponte da Baía de São Francisco…”

O amor e a preocupação do Imperador Norton por São Francisco não o preveniu de direcionar sua atenção para a cena nacional. Sua Majestade logo se cansou de todas as injúrias políticas em curso no país, e ele decidiu colocar um fim nelas emitindo outra de suas famosas proclamações no San Francisco Herald em 4 de agosto de 1869:

"Com o desejo de dissipar as discórdias da luta partidária atualmente existindo em nossa esfera, [Eu] ora dissolvo e extingo os partidos Democrata e Republicano, e também ora decreto a marginalização e aprisionamento, por não mais que dez, não menos que cinco anos, de todos aqueles que levarem à violação deste nosso decreto imperial."

Norton governou muito de seu reino por meio de proclamações, mas ele não estava acima de lidar diretamente com os problemas e questões que mereciam sua direta atenção. Durante uma das típicas demonstrações anti-Chinesas tão comuns na época, o Imperador deu à população local uma lição prática da aplicação da civilidade – e da oração. Sentindo o tom perigosamente inflamado de uma reunião em particular, é dito que Norton pôs-se de pé defronte ao grupo, curvou sua cabeça e começou a recitar o Pai-Nosso. Em poucos minutos os agitadores recuaram envergonhados sem pôr em ação nenhuma de suas cruéis ameaças.

A posição do Imperador sobre os direitos iguais para as mulheres, entretanto, parecia variar. Uma petição de outubro de 1878 para a Convenção Constitucional da Califórnia pedindo por uma emenda de que “nenhum cidadão do Estado deverá ser marginalizado com base no gênero” teve entre seus assinantes “Imperador Norton I”. Apesar de não ser um chauvinista típico do século XIX, entretanto, Norton traçou uma tênue linha em torno do papel da mulher. Quando o Imperador compareceu para ouvir a palestra de uma líder do movimento sobre o direito das mulheres, por exemplo, pareceu correto que o mestre de cerimônias apresentasse Norton e sugerisse que ele fosse ao palco antes da convidada principal e recebesse a saudação de seus súditos. Mas a balbúrdia deve ter-se seguido quando ele mesmo decidiu palestrar sobre o assunto, dizendo às mulheres presentes que “fossem pra casa e cuidassem de suas crianças”.

Apesar de Norton estar obviamente ocupado com seus dever local e nacional, ele também achou tempo para opinar em assuntos internacionais. Certa vez ele tornou público que o México havia “implorado a ele para que o governasse”. Como resultado, ele adicionou “Protetor do México” ao seu já pomposo título. Mas seu protetorado não durou muito; ele rapidamente largou seu novo título com a explicação de que era “impossível proteger uma nação tão inquieta”.

Apesar de Norton ter morrido inesperadamente de apoplexia em 8 de janeiro de 1880 enquanto fazia suas rondas diárias, ele continuou Imperador. Os cidadãos de São Francisco que o honraram em vida continuaram a ser súditos leais após sua morte. Toda a cidade chorou sua perda. “São Francisco sem o Imperador Norton”, um jornal anunciou, “será como um trono sem um rei”, e a cidade sabia disso. Os cidadãos passaram a amar Norton, excêntrico ou não, e eles fizeram com isso fosse sabido. Bandeira a meio-mastro. Lojas fechadas por respeito. O funeral e os preparativos para o enterro do Imperador foram os mais elaborados que a cidade já tinha visto, com impressionantes 20,000 pessoas prestando suas últimas homenagens. Com os cidadãos mais abastados cobrindo as despesas, Norton foi deixado para descansar no Cemitério Maçônico com toda a cerimônia que um imperador verdadeiro teria recebido.

(Texto adicional)
Em 1934, seus restos tiveram que ser removidos para o Cemitério Woodlawn, em Colma. Cinqüenta e quatro anos após sua morte, ele ainda capturava a imaginação de São Francisco. Bandeiras pela cidade foram abaixadas e lojas realmente fecharam as portas em sua honra. Pessoas compareceram à cerimônia que teve todas as honras militares. Em sua nova lápide de granito foi gravado “Norton I, Imperador dos Estados Unidos, Protetor do México, Joshua A. Norton, 1819-1880”. Não há aspas em sua lápide.

FONTE: