segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

DOM ANTONIO: "DOM PEDRO II SOUBE SER O PODER MODERADOR"

"O que tenho a dizer de Dom Pedro II é que ele soube ser o Poder Moderador". - Dom Antonio

MANIFESTO DE S.A.R. DOM ANTONIO DE ORLEANS E BRAGANÇA 
NA CELEBRAÇÃO DO 190* ANIVERSÁRIO DO IMPERADOR DOM PEDRO II

Segue mostrando que hoje o que falta ao Brasil é justamente um Poder Moderador em momentos de crise não só do governo mas também do Parlamento.

"Dom Pedro tinha o poder de demitir o Gabinete ou até mesmo dissolver o Parlamento quando este se mostrava indigno"

Hoje, nós os brasileiros, recebemos diariamente notícias de atos vergonhosos e mesmo falcatruas de grande número de políticos. e tudo continua na mesma... No Segundo Reinado este Parlamento já teria sido dissolvido pelo Imperador...

"Dom Pedro não teria escolhido políticos pessoalmente. Ele convocaria o povo para fazer a nova escolha. Foi a fase mais democrata que o Brasil já viveu..."

Porque, a outra função do Poder Moderador era garantir a harmonia dos três Poderes. Visava garantir a Independência de cada um deles. Não deixando por exemplo, que o Judiciário se imiscuísse nas funções do Legislativo e do Executivo e vice-versa.

"Nos últimos meses, temos visto o Judiciário fazendo leis, exercendo o papel que seria do Legislativo. Recentemente, sugeriram que o Supremo Tribunal é o Poder Moderador, que pode decidir sobre tudo, fazer leis, e executar as leis. Será assim um poder Ditatorial".

Dom Pedro II tinha o poder de impedir as interferências de um poder em outro. Nosso país, não estaria nesta situação se ainda fôssemos uma Monarquia. Dom Pedro II sempre deu exemplo do que um Chefe de Estado deve ser um servidor. E Ele seguiu esta diretriz ao extremo, de corpo e alma até o fim de sua vida. Esta é a função de um chefe de Estado.

"Não é de servir-se do cargo mas servir à nação. Acredito que a última esperança para um Brasil melhor é a volta do Regime Monárquico e do Poder Moderador inclusive... Não concebo uma Monarquia apenas decorativa. O Imperador tem que ter o poder de veto e o poder de dissolver o Parlamento."

O Brasil vive uma crise econômica e política terrível. Ninguém sabe o que será o amanhã... parece-nos que será cada vez pior: déficit público imenso, desemprego aumentando, cada vez mais..

"Precisamos de alguém que tomasse posição neste momento. Esta seria a função do Monarca e do Poder Moderador. Isto é o que teria a dizer agora... Aprendi com meu Pai que este é um país maravilhoso com um povo maravilhoso, muito criativo e trabalhador. E, se deixarem trabalhar, o Brasil será país do Primeiro Mundo tal como foi no tempo de Dom Pedro II. Agradeço a todos em nome da Família Imperial desejando que tenhamos dias mais felizes..."

domingo, 6 de dezembro de 2015

A DESPEDIDA DA PRINCESA E O CASO DA FERROVIA NÃO TERMINADA

Cartão postal com a estação de Curitiba da estrada de ferro do Paraná

A princesa Isabel e seus filhos despediram-se de Curitiba no dia 13 de dezembro de 1884, após passarem quatorze dias entre a capital e o interior do Paraná. Pegaram o trem para Paranaguá a poucos quilômetros da estação em frente à rua da Liberdade – atual Barão do Rio Branco – pois os trilhos ainda não haviam sido assentados até o fim. Conde d'Eu seguia viagem pelo interior até Santa Catarina, onde iria se encontrar com a esposa dias depois.

Na carta diário que a Redentora – como era conhecida por defender a causa abolicionista – enviou a seus pais, Dom Pedro II e Dª Tereza Cristina, foram poucas as palavras sobre a partida. “Volta a Paranaguá. Dia, outra vez, esplêndido para a descida da serra. Fizemos parar, por vezes, o trem, para apanharmos flores novas para nossa coleção” - estas observações sobre a flora, que aparecem em diversos momentos na sua carta, devem-se ao seu grande interesse por botânica.

Nos bastidores, uma corrida para que a estrada estivesse pronta para os festejos da Emancipação Política do Paraná, que completaria 31 anos. No entanto, tão perto de chegar ao seu final, após cinco anos em obras, parecia patinar em acertos burocráticos na capital. Isto ao menos é o que conta o correspondente do Diário de Notícias do Rio de Janeiro.

“Em Curityba tem havido o diabo com o assentamento dos trilhos da estrada de ferro do Paraná. O Sr. commendador Martins Franco, em cujas terras passa a estrada, embargou as obras, e pede 16:000$ de indemnisação. Segundo nos consta, o Sr. Dr. Teixeira Soares, engenheiro-chefe da estrada, vai depositar a quantia pedida e acceitar a acção judiciaria, afim de poderem proseguir os trabalhos de assentamento dos trilhos, que estão distantes da estação central, em Curityba, apenas 4 kilometros e 600 metros. Mais dois dias de trabalho e a machina soltará o seu silvo do progresso na esperançosa cidade de Curityba.” Escreveu isto no dia 8 daquele mês, com a publicação no Rio de Janeiro somente dias depois, na edição 361 (26 de dezembro), pois as reportagens chegavam pelo correio.

Mas foi no dia 13 de dezembro que o correspondente soltou toda a sua indignação em texto, ao relatar a partida da princesa, pois as obras ainda não haviam terminado como ele esperava. “Por causa da camara municipal da capital da provincia, tiveram SS. AA. Imperiaes, a Sra. Princeza e seus filhos, sua comitiva, de percorrer em carro, cerca de 2 kilometros para alcançar a ponta dos trilhos da estrada de ferro do Paraná, que devido á patriotica camara não chegou ainda ao seu termino.”

Contou ele de um novo embargo à obra, administrada pela companhia Génerale de Chemins de Fèr Brésiliens. “Agora é a camara municipal de Corityba da capital da provincia, quem embarga as obras, por passarem os trilhos pelas terras municipaes, exigindo para levantar o embargo a grande quantia de 1:500$000.” Mais adiante, no mesmo texto, prosseguiu: “Quando se encetaram os trabalhos d'esta estrada, a camara municipal de Paranaguá, deu um notavel baile aos engenheiros, e fez votos para que a estrada continuasse. Vencidos os primeiros 40 kilometros chegou a machina á cidade de Morretes e a respectiva municipalidade, considerou esse acontecimento como um dia de festa, e houve grande pagodeira”.

Segundo ele, faltavam apenas 3,2 quilômetros para a conclusão da ferrovia quando houve o embargo. “Vejam os leitores se isto é coherencia. Perto da cidade, havia um grande pantano, a camara municipal de Corytiba dirige-se ao engenheiro chefe dos trabalhos da estrada e pede-lhe para fazer alli a estação. O engenheiro, accede ao pedido, faz a estação, com a qual gastou 114:000$, dessecca o pantano, e dá com isso á cidade outras condições de salubridade;  A camara municipal apanhou-se servida e no momento em que a assembléa provincial, sem duvida mais empenhada pelo engrandecimento da provincia, pede o prolongamento da estrada, vem a camara municipal e embarga-lhe as obras. Não farei mais commentarios e apenas direi que o que a camara municipal e a assembléa deviam pedir, não é vias de communicações faceis, baratas e rapidas como os outros paizes, - é cathechese, porque ainda estão muito selvagens estes povos.”

Ele continuou fazendo duras críticas à Câmara e também à cidade: “Ao passo que a camara de Corityba, de gloriosa memoria, oppõe-se abertamente ao progresso da provincia, esquece-se dos seus deveres, deixa que a cidade continúe immunda, sem calçamento, e as ruas cheias de atoleiros e de pó. Quando chove não se póde sahir de casa, quando não chove o pó é tanto que suffoca os transeuntes. Só quem vem ao Paraná é que póde avaliar a miseria em que se acha a provincia, cuja capital é inferior ao bairro do Engenho Novo ou de Todos os Santos ahi no Rio de Janeiro. O Paraná nada tem, e o que possui é mau e pessimo; começando pelas ruas, passa-se á cadeia que é um attentado ao progresso, á civilisação e á higyene, e faz-se ponto na camara municipal de que fallo, que está de cutello erguido contra tudo que seja elemento de grandeza para estra provincia que é patrimonio de duas famílias, que põem e dispõem a seu bel prazer. Digo estas verdades porque estamos em tempo, atravessamos um periodo em que é preciso pintar a cousa tal qual é, sem medo, nem rebuço.”

Não foi de se admirar o pedido de embargo realizado pela Câmara. Era ela o poder administrador da cidade – a figura do prefeito tornou-se efetiva somente após a Proclamação da República – e pelos motivos que o próprio repórter elencou, era preciso dinheiro para investimentos. O valor exigido para levantar o embargo, portanto, fazia-se evidentemente necessário. Para uma obra que durou cinco anos, tendo enfrentado desafios como as construções do Viaduto do Carvalho e a Ponte São João, mal algum faria ser prolongada por mais alguns dias. O fato é que, no dia 19 de dezembro, data da Emancipação Política do Paraná, foi definitivamente concluída – a estação ainda tinha com alguns detalhes por terminar. A inauguração ocorreria no dia 2 de fevereiro do ano seguinte.

O Dezenove de Dezembro, periódico que circulava no Paraná, nada relatou a respeito do embargo, mas ao noticiar a partida da família imperial, cumprimentou os “distinctos collegas da imprensa da côrte da Gazeta de Noticias [do Rio de Janeiro] e do Paiz, os Srs. Maximino Serzedello e José Vinhaes”. “A' tão distinctos cavalleiros, que em tão pouco tempo tanta sympathia grangearam do povo desta capital, apresentamos nossos cumprimentos, desejando prospera viagem correspondendo á delicada cortesia com que vieram despedir-se do proprietário de nossa folha”. Na redação, obviamente, ainda não haviam lido o jornal carioca, que seria publicado somente no dia 1º de janeiro de 1885, devido à demora dos correios da época.


Por Michelle Stival da Rocha – Jornalista da Diretoria de Comunicação da Câmara Municipal de Curitiba.

FONTE: goo.gl/U6Ggie

Notas:
1) As citações de atas e notícias, entre aspas, são reproduções fieis dos documentos pesquisados. Por isso, a grafia original não foi modificada.

2) Ao utilizar ou se basear em textos históricos do nosso site, por gentileza, cite a fonte.

Referências bibliográficas:
Edição 361 - Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro – 26 de dezembro de 1884

Edição 001 - Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro – 1 de janeiro de 1885

A estrada de ferro Paranaguá-Curitiba. Uma obra de arte. - Acervo do Museu Paranaense.

Edição  291 - O Dezenove de Dezembro – 14 de dezembro de 1884
Boletim Especial do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense. Comemorativo ao Sesquicentenário da Independência do Brasil 1822-1972. (Volume XV, ano 1972).

TRÊS PRÍNCIPES NOS CAMPOS DE TRIGO DO ABRANCHES

D. Pedro, D. Antonio e D. Luís, herdeiros da Princesa Dona Isabel

Em 1884, dois colonos que ceifavam trigo em um campo no Abranches, avistaram três meninos que, vindo em sua direção, pediram-lhes algumas espigas do cereal. Nem imaginavam os camponeses – e pense na surpresa quando descobriram – que as três crianças eram príncipes, netos de Dom Pedro II. A data era 4 de dezembro e os infantes haviam chegado cinco dias antes a Curitiba, acompanhados de seus pais, princesa Isabel e Conde d'Eu, para conhecer a cidade e fazer a primeira viagem oficial da estrada de ferro, vindos de Paranaguá. 

O campo em que D. Pedro, D. Antonio e D. Luís passeavam tratava-se de uma colônia de poloneses provenientes da Prússia Ocidental. Os colonos estavam ali a pouco tempo (desde 1873), após terem conseguido autorização do então presidente da Província do Paraná, Frederico Abranches, para se instalarem a “seis quilômetros” de Curitiba, num espaço estabelecido pela Câmara Municipal. Outros bairros, como Pilarzinho, Santa Cândida, Augusta e Orleans, também foram povoados por poloneses, tornando a capital, a maior colônia destes imigrantes no Brasil. Tudo isso porque o imperador havia adotado uma política de “portas abertas” aos estrangeiros, para minimizar a falta de mão de obra – a propósito, o bairro Orleans recebeu este nome em homenagem ao Conde d'Eu, Luíz Felipe de Orléans.

Naquela manhã de 1884, a família imperial chegou à colônia às 7h30. “Os colonos aguardavam os augustos visitantes, no adro da igreja que alli ha, em companhia do padre Kuvonski, diretor e parocho na colonia, que é composta de mais de 1,500 pessoas, entre homens, mulheres e crianças, todos polacos e pertencentes á Prussia”, narrou o jornal Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, que enviou um correspondente especialmente para acompanhar a viagem dos príncipes. 

Lá, participaram de uma missa e ouviram músicas típicas: “á  sahida, os colonos dirigiram um cantico a Suas Altezas, cantando em côro, depois d'isso, o hymno polaco, cantando com eles o Sr. conde d'Eu, que declarou já ter ouvido este hymno na Cracóvia uma vez, e que alli o povo que o ouve e os que o cantam, levantam-se para provar que a Polonia não morreu ainda – o que tambem acreditam. O Sr. conde d'Eu esteve alguns dias na Polonia, e, como tem grande aptidão para as línguas, conseguiu aprender aquelle idioma.”, relatou o correspondente – vinte anos antes, guerras externas travadas pelo exército prussiano impulsionaram a imigração de aldeães de Siolkowice, uma pequena aldeia próximo a Opole, no Sul da Polônia, para as terras brasileiras. 

Chama a atenção a descrição que o jornalista carioca faz sobre a aparência dos anfitriões, quase como se não estivessem no mesmo Brasil. “As mulheres n'esta colonia usam todas umas toucas, parecidas com as que se põe nas crianças recém-nascidas, e que lhes dão uma apparencia muito comica.  Os homens, e mesmo as mulheres, são feios, predominando o cabello preto em umas cabeças chatas como a dos nossos patricios do Ceará. São de boa indole, muito trabalhadores e sorumbaticos. Custa-se a arrancar uma palavra  d'estes polacos, que têm physionomia de quem pensa muito na vida pela certeza da morte.”

Ele relatou ainda que a colônia Abranches era a que ficava mais perto “da cidade de Curityba”, e que ali se cultivava milho, trigo, centeio e batatas. “Muitos outros cereaes alimentícios, e gado suíno, muar e cavallar; não é a colonia mais prospera, mas é uma das melhores da provincia. Em caminho para ella avistam-se grandes campos cobertos de plantação, e todos os lotes de terra bem aproveitados.” Por esta descrição, é possível perceber quão rural e diferente era a região norte da cidade da atualidade.

“Em regresso, os principes D. Pedro, D. Luiz e D. Antonio, avistando em um grande campo dois colonos, que ceifavam trigo, dirigiram-se a elles e pediram algumas espigas d'aquelle cereal, sendo satisfeitos pelos colonos, que não sabiam quem eram aquellas crianças, o que só mais tarde conseguiram, ficando por isso lisongeados”, continuou.

Naquele dia, princesa Isabel escreveria aos pais: “Nas colônias Abranches, Santa Cândida, Pilarzinho e Lamenha, todas polacas e perto de Curitiba, há umas 250 famílias. A única coisa que os colonos se queixam é da exiguidade do lote que destinaram a cada família, no que, com efeito, pareceu-nos terem eles razão”.

Notas sobre os alemães
Os alemães, que também tiveram forte influência cultural em Curitiba, da mesma forma foram alvo de observação por parte dos visitantes, principalmente do correspondente carioca. “Nas colonias, os Srs. Allemães chegaram a afinação de governar e dar leis; e a língua que n'elas se ensina, é a d'aquella nacionalidade, porque o governo não póde com elles, que ás vezes nem conhecem a auctoridade policial e só prestam obediência ao maioral das colonias, que é um rei pequeno.” 

“Por toda parte, em todas as ruas, ás janellas de todas as casas, parados ás esquinas, encontram-se indivíduos de cachimbo na bocca, mãos nos bolsos e bonet; não é preciso perguntar, porque se lhe dirigirem a palavra em portuguez, não respondem: - é allemão. E ser-se allemão em Curityba, ou falar um pouco o idioma, já se é alguma cousa.” 

Por Michelle Stival da Rocha – jornalista da Diretoria de Comunicação da Câmara Municipal.


Notas:
1) As citações de atas e notícias, entre aspas, são reproduções fieis dos documentos pesquisados. Por isso, a grafia original não foi modificada. 

2) As informações encontradas sobre o local de hospedagem da família imperial em Curitiba são contraditórias. O boletim do IHGPR informou que teria sido na casa de Antonio Ricardo dos Santos. Mas conforme pesquisa realizada pela Casa da Memória, no livro "Ação empresarial do barão do Serro Azul", p. 54, da prof. Odah Regina Guimarães (UFPR), existe a afirmação de que a Princesa ficou hospedada no palacete do Barão (do Serro Azul – O Solar do Barão, hoje um espaço cultural da prefeitura).

3) Ao utilizar ou se basear em textos históricos do nosso site, por gentileza, cite a fonte.

Referências Bibliográficas:
Edição 352 da Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro – quinta-feira, 17 de dezembro de 1884, pg. 2.

Edição 355 da Gazeta de Noticias do Rio de Janeiro – Sábado, 20 de dezembro de 1884. 

Imigração polonesa no território paranaense: Aspectos culturais e distrição espacial das colônias polonesas no espaço geográfico paranaense. Antonio Leocadio Cabral Reis e Marcos Aurélio Tarlombani da Silveira.

Identificação de Conflitos pelo Uso e Ocupação do Solo Urbano na Região das Nascentes do Rio Belém, Município de Curitiba, Paraná  HARRY ALBERTO BOLLMANN (PUCPR), DENIS ALCIDES REZENDE (PUCPR) e RAFAEL ALEXANDRE DE FIGUEIREDO GOMES (PUCPR).

Boletim Especial do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense. Comemorativo ao Sesquicentenário da Independência do Brasil 1822-1972. (Volume XV, ano 1972). 

Fenianos, Eduardo Emílio. Orleans, Riviera, Augusta e São Miguel. Curitiba: UniverCidade, 2000. (Coleção Bairros de Curitiba; v. 24).

PRINCESA ISABEL E UM RETRATO DOS PRÉDIOS DE CURITIBA EM 1884

Quando a princesa Isabel visitou a Santa Casa não foram poupadas críticas ao prédio, 
por parte do jornal carioca.

“Se por fóra elle é bonito, por dentro é horroroso, só tendo de bom a capella em estylo gothico e o necroterio no mesmo gosto. Para este edificio póde empregar-se o ditado – por fora cordas de viola, por dentro pão bolorento.” Foi exatamente assim que a Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, no dia 3 de dezembro de 1884, reportou sobre as dependências da Santa Casa de Misericórdia, por ocasião da visita da família imperial a Curitiba. Era um espaço praticamente recém-criado, inaugurado em 1880 pelo próprio imperador Dom Pedro II, e que por muitos anos foi o único hospital da cidade.

Embora seja possível notar o expressivo mau humor com que o repórter carioca – enviado especialmente para cobrir a comitiva da princesa Isabel – abordou certos assuntos da capital paranaense, por meio de seus relatos é possível delinear alguns traços de Curitiba que não estão nos livros, tampouco em fotografias. Não é de se estranhar seu descontentamento, acostumado que estava a viver na cidade que recebera todos os mimos e investimentos por ser sede do Império do Brasil.

“Dividido em muitas salas, algumas acanhadas e sem ar, na maior parte vazias e infectas, taes são as enfermarias onde se encontram actualmente 31 doentes, sendo 10 loucos, 7 mulheres e tres homens, um dos quaes estava nú. As camas e os colchões (se é que o são) não abonam muito o estabelecimento, nem a irmandade, que é o provedor e medico do hospital, o Sr. Dr. Albuquerque... Tem o hospital uma boa pharmacia e um excellente enfermeiro”, continuou.

“O hospital, por fóra é de bonita apparencia, e, construido n'um estylo que nem é gothico, nem dorico, é uma melange de architecturas, mas que mostra o gosto de quem o desenhou e de quem executou as obras”, descreveu. A casa de saúde fora fundada pelo Dr. José Candido da Silva Murici, que dá nome à alameda Dr. Muricy.

Diferente foi o relato da princesa Isabel, que, em uma carta diário destinada a seus pais D. Pedro II e Dª Tereza Cristina, reconheceu a falta de recursos, mas foi suave ao retratar o cenário. “Depois do almoço visita ao hospital de Caridade, com poucos recursos, mas bem arranjado. Capelinha muito bonita, feita com madeiras do Paraná. O Dr. Pires [Atonio Carlos Pires de Carvalho e Albuquerque], provedor da irmandade e médico daí, agradou-me. Dizem ser muito boa pessoa e muito caridosa. O estilo arquitetônico do hospital é inglês, do tempo da Rainha Isabel, bonito. Só é pena que tivessem caiado todo o edifício. Dessa forma não lhe terão deixado todo o seu cunho.”

A história da inauguração da Santa Casa, que contou com a presença do imperador D. Pedro II, é contada pelo jornalista da Câmara Municipal João Cândido Martins, em outra matéria publicada na seção do Nossa Memória. Ocorreu no dia 22 de maio de 1880 e foi um marco da influência alemã na engenharia curitibana. O prédio foi decisivo para a urbanização do Campo do Olho d'Água, local hoje conhecido como Praça Rui Barbosa.

Hoje a instituição é mantida pelo Grupo Marista e atende pelo Sistema Único de Saúde (SUS), convênios e particular. Possui uma estrutura com 278 leitos, sendo 37 de UTIs e nove salas cirúrgicas, conforme seu site. Realiza entre 600 e 800 cirurgias mensais e interna uma média de 1.350 pacientes por mês. Atende diversas especialidades, como cirurgia vascular, otorrinolaringologia, cardiologia, cirurgia vascular, bariátrica, transplantes, dentre outras.

A Câmara e a Assembleia
No dia 5 de dezembro, a família imperial visitou a Câmara Municipal, que funcionava em cima da cadeia pública. Desta vez, foi a princesa Isabel quem não poupou críticas: “muito acanhada, e Gaston [Gastão de Orleans, o Conde d’Eu] desceu à prisão que achou muito suja, muito desordenada, os presos muito acumulados. Dizem que pouca fiscalização tem havido, e que até súcias¹ e jantares se têm dado na prisão, entre presos e gente de fora. O presidente (Brasílio Machado) e o Chefe de polícia (Dr. Leão Veloso) dizem que vão tomar providências. Eles há pouco chegaram, e por isso nada fizeram”.

Na Gazeta de Notícias, inicialmente uma simples menção à visita. “O edifício da municipalidade é pequeno e fica ao lado da cadêa, havendo no pavimento terreo uma prisão.” No entanto, posteriormente, o mesmo jornal, sem dó, publicaria: “não podemos deixar de declarar, que não ha em todo o imperio peior cadeia que a d'esta capital. Os presos aqui passam um vidão, passeiam quando querem, visitam a família e os amigos, dão banquetes e fazem negocio nas prisões, cujas grades têm o aspecto de vitrina de casa de quinquilharias”. Esse prédio ao qual se referiram foi demolido e ficava onde hoje é o Mercado das Flores, na Praça Generoso Marques.

No mesmo dia, os príncipes foram visitar a Assembleia Provincial: “Foram Suas Altezas, acompanhadas do Sr. marechal Miranda Reis e baroneza de Suruhy, visitar a assembléia provincial, onde foram recebidas pelos srs. Conselheiro Alves de Araujo, Dr. Generoso Marques e outros Srs. Deputados. O edificio da assembléia foi mandado construir pelo finado conselheiro Zacarias e pode-se dizer que é um dos melhores edificios da provincia: espaçoso, com uma grande galeria para o povo, muito arejada e perfeitamente collocada”, noticiou o periódico.

O prédio ficava na Dr. Muricy, esquina com a rua Cândido Lopes, onde permaneceu até o início da década de 50, conforme informa o site da Assembleia Legislativa do Paraná. O prédio não existe mais e no lugar está a Biblioteca Pública do Paraná.

O palácio da Assembleia Provincial, a Santa Casa, a estrada de ferro Curitiba-Paranaguá e o Passeio Público, citados nesta série de reportagens sobre a visita da princesa Isabel e sua família a Curitiba, são os primeiros sinais do progresso que se avolumava após a Emancipação Política do Paraná, cujo território antes de 1853 era subordinado à província de São Paulo. No entanto, percebe-se que ainda havia pouco recurso para geri-lo, o que ficou evidente aos augustos viajantes na visita. Curitiba e o Paraná estavam crescendo e demandavam investimentos.

Por Michelle Stival da Rocha – Jornalista da Diretoria de Comunicação da Câmara Municipal de Curitiba.

FONTE: goo.gl/YvRxcU

Notas:
1) Súcias: cambada, corja, bando de vagabundos, grupo de marginais.

2) As citações de atas e notícias, entre aspas, são reproduções fieis dos documentos pesquisados. Por isso, a grafia original não foi modificada.

3) As informações encontradas sobre o local de hospedagem da família imperial em Curitiba são contraditórias. O boletim do IHGPR informou que teria sido na casa de Antonio Ricardo dos Santos. Mas conforme pesquisa realizada pela Casa da Memória, no livro "Ação empresarial do barão do Serro Azul", p. 54, da prof. Odah Regina Guimarães (UFPR), existe a afirmação de que a Princesa ficou hospedada no palacete do Barão (do Serro Azul – O Solar do Barão, hoje um espaço cultural da prefeitura).

4) Ao utilizar ou se basear em textos históricos do nosso site, por gentileza, cite a fonte.

Referências Bibliográficas:
Edição 355 da Gazeta de Noticias do Rio de Janeiro – Sábado, 20 de dezembro de 1884
Edição 357 – Gazeta de Noticias RJ, 22 de dezembro de 1884 – pg 1
Edição 358 – Gazeta de Notícias RJ 23 de dezembro de 1884 – pg 2
Diário da Princesa 3 dezembro de 1884,  pg 38.
Site da Assembleia Legislativa do Paraná (ttp://www.alep.pr.gov.br/a_assembleia/historia)
Boletim Especial do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense. Comemorativo ao Sesquicentenário da Independência do Brasil 1822-1972. (Volume XV, ano 1972).

UMA PRINCESA NOS TRILHOS DE NOSSA HISTÓRIA

A Princesa Dona Isabel veio a Curitiba em 1884 para a primeira viagem oficial 
da estrada de ferro Curitiba-Paranaguá. 

Nesta semana, comemora-se o aniversário da Princesa Isabel (29 de julho de 1846). Pouca gente sabe, mas quando a estrada de ferro Curitiba-Paranaguá estava para ser inaugurada, a capital recebeu a visita dela, com o marido, Conde d'Eu, e os filhos Pedro, Luis e Antônio, em 1884. Juntos, eles fariam a primeira viagem oficial da ferrovia – mas a grande inauguração seria feita somente no dia 1º de fevereiro de 1885. Para esperá-la, a cidade estava em festa, com as casas iluminadas e as ruas enfeitadas com bandeiras e arcos. Uma série de reportagens, que começa com esta, vai contar como foi a visita e como era a “Curityba” do século XIX.

“A commissão de festejos roga a todos os dignos commerciantes desta praça o obsequi de fecharem os estabelecimentos, hoje das 2 horas da tarde em diante e, outrossim, pede aos habitantes da capital, que se dignem de illuminar a frente de suas casas durante as noites em que aqui permanecerem SS. Altezas.” Assim anunciou o jornal O Dezenove de Dezembro, que noticiou cada passo da família nestas terras de muito pinhão. Um boletim do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense (IHGPR), publicado em 1972, transcreve a carta diário que a princesa escreveu a seus pais, D. Pedro II e Dª Tereza Cristina.

Mas é o relato de um repórter da Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, que acompanhou toda a visita, que chama a atenção pela riqueza de detalhes e impressões pessoais. Ele descreve não só o passeio, mas também a cidade da época. As visitas à Santa Casa, às fábricas de mate, às colônias do Abranches e Taboão, à Câmara Municipal e ao Palácio do Governo, além dos contratempos do final do assentamento da estrada de ferro, são os fatos narrados de forma pitoresca pelo jornal.

Saindo de Paranaguá às seis horas da manhã, suas altezas chegariam a Curitiba de trem, naquela que seria a primeira viagem oficial pela via-férrea, no dia 29 de novembro de 1884. Faltavam 20 dias para as comemorações da Emancipação Política do Paraná, e a inauguração do trajeto era um presente à cidade, em alusão à data.

A linha ainda não havia sido concluída até a estação da Praça Eufrásio Correia, e a família imperial teve de descer na altura do bairro Cajuru e terminar o trajeto em carruagens. A expectativa, de acordo com a Gazeta de Notícias, era de que, talvez, durante os dias que ficassem em Curitiba e arredores, a estrada desse por concluída e a despedida (13 de dezembro) já fosse na estação. No entanto, ocorreram alguns contratempos, que serão contados mais adiante, em outra reportagem da série.

A edição 348 da Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro traz o relato da viagem, que incluiu um café da manhã em Morretes e um almoço na estação do Cadeado, ambos oferecidos pelo engenheiro da estrada, João Teixeira Soares. No Cadeado, um pavilhão foi montado especialmente para a ocasião, “e de onde se descortina um vista esplêndida, baía de Paranaguá ao longe. A serra do Marumbi à direita. Que magnífica serra! E como estava banhada de luz!”, descreve a princesa em sua carta a D. Pedro II.

“Cheios de saudades, estou certo, deixaram hoje pela manhã a cidade de Paranaguá Suas Altezas Imperiaes e a sua comitiva, que levou d'esta cidade a mais grata recordação. A's 6 horas da manhã, prompto o comboio, seguiram os augustos viajantes pela estrada de ferro do Paraná, em companhia do engenheiro chefe e dos outros empregados da linha e grande numero de pessoas”, relata o jornal carioca, que complementa: “na frende da machina collocaram-se dous carros abertos, em um dos quaes iam Suas Altezas, e no outro os engenheiros da estrada, o estado maior do Sr. conde d'Eu e os representantes da imprensa e da côrte, para poderem ver a via-ferrea e as suas bellas obras d'arte. A' proporção que se sobe, vão se descortinando panoramas esplendidos, e do alto da serra do Marumby, que se acha a 1800 metros acima do nível do mar, e a mais de 80 kilometros de Paranaguá, avista-se a entrada da barra desta cidade, como em toda a subida em differentes pontos e posições o mar, de lado de Paranaguá”, documenta o periódico.

“Que viagem! Nunca vi, creio eu, estada de ferro mais bela, com mais pontos de vista esplêndidos, seguidos dos famosos campos do Paraná, verdadeiros parques ingleses, com seus grandes gramados, com muita florzinha bonita, e os massiffs [bosque espesso, segundo o boletim do IHGPR] formados pelos belos pinheiros”, escreve a herdeira, aos pais.

O trem parou em Piraquara, “indo Suas Altezas a pequena distancia apanhar parasitas, flores, e ver a herva matte denominada chimarrão e o cipó que figurou na exposição de Philadelphia em 1876” (Gazeta do Rio de Janeiro). Mais adiante, em uma localidade chamada Atauba (km 100) – hoje identifica-se o local de parada como sendo no bairro Cajuru –, ponto até onde iam os trilhos do trem, às 3h40 da tarde, foram recebidos pelo comendador Ildefonso Corrêa e “grande numero de pessoas importantes de Curitiba, e muitos carros [carruagens] que conduziram os augustos viajantes e sua comitiva á capital do Paraná, onde chegaram ás 5 horas da tarde, fazendo-se viagem pelo leito da estrada”, relata o jornal.

Foram recepcionados na porta do palácio de Ildefonso Corrêa por “colonos polacos” e moças que carregavam bandeiras, e homens com galhardetes e ramos. “O Sr. conde d'Eu, da sacada do palacio, agradeceu a manifestação, proferindo um discurso, no qual pediu aos colonos que alliados aos brazileiros fizessem prosperar o Brazil, cujo solo lhes daria a recompensa dos seus esforços. Terminou levando vivas aos colonos e ao Brazil.” Segundo o relato do periódico carioca, o conde começou seu discurso em allemão e terminou-o em “polaco”, “por lhe terem dito que os colonos eram d'esta nacionalidade”.

“De noite, os alemães vieram com lanternas de cores e com cânticos nos cumprimentar. Há muitos alemães e polacos por aqui, e muita carinha de criança tenho visto que me faz lembrar as de Petrópolis. Curitiba é uma bonita cidadezinha: Ruas alinhadas, casas muito limpinhas, alguns edifícios bonitos...”, constatou Isabel.

No dia seguinte, percorreram a cidade e assistiram uma missa celebrada na Igreja Matriz. “A' 1 hora da tarde houve cortejo, ao qual compareceram todos os officiaes e commandantes dos corpos actualmente em Curityba. SA, a princesa imperial, os principes e seus preceptores percorreram a cidade e arrabaldes, voltando a palacio quasi ao anoitecer.” (Gazeta do Rio de Janeiro)

Nos relatos que se seguem nas reportagens do correspondente carioca, nota-se um grande interesse de Conde d'Eu pelos quartéis da cidade, enquanto a princesa Isabel preferiu os passeios no campo e as paisagens.

No dia 7 de dezembro, as altezas imperiais seguiram para o interior da província, indo a princesa Isabel até Palmeira acompanhar Conde D'Eu e assistir à festa de Nossa Senhora da Conceição. Dali, ela voltaria a Curitiba. Ele, junto ao seu estado-maior e os representantes da imprensa da côrte, por terra, visitariam a província de Santa Catarina, “onde deveriam encontrar-se com S. A. a princeza imperial, que vai por mar”, conforme deu a Gazeta do Rio de Janeiro.


Por Michelle Stival da Rocha – Jornalista da Diretoria de Comunicação da Câmara Municipal de Curitiba.

FONTE: goo.gl/bp1VfO

Notas:
1) As citações de atas e notícias, entre aspas, são reproduções fieis dos documentos pesquisados. Por isso, a grafia original não foi modificada.

2) As informações encontradas sobre o local de hospedagem da família imperial em Curitiba são contraditórias. O boletim do IHGPR informou que teria sido na casa de Antonio Ricardo dos Santos. Mas conforme pesquisa realizada pela Casa da Memória, no livro "Ação empresarial do barão do Serro Azul", p. 54, da prof. Odah Regina Guimarães (UFPR), existe a afirmação de que a Princesa ficou hospedada no palacete do Barão (do Serro Azul – O Solar do Barão, hoje um espaço cultural da prefeitura).

Referências Bibliográficas:
- Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro (edição 348, de 13 de dezembro de 1884 pg.2). Exemplar disponível para consulta na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

- Jornal O Dezenove de Dezembro (edição 278, de 29 de novembro de 1884). Exemplar disponível para consulta na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

- Boletim Especial do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense. Comemorativo ao Sesquicentenário da Independência do Brasil 1822-1972. (Volume XV, ano 1972).

- A estrada de ferro Paranaguá-Curitiba. Uma obra de arte. - Acervo do Museu Paranaense.

CURIOSIDADE, APETITE REAL

Boa de garfo, a monarquia portuguesa tinha predileção por alimentos brasileiros
O Imperador Dom Pedro I preferia um bom prato de arroz com feijão a refeições requintadas

Por RODRIGO CARDOSO

“Hoje fiz uma verdadeira penitência; como não me deram senão peixe de lata, que não gosto nada, não comi senão arroz de manteiga e batatas.” Assim escreveu a Princesa Isabel, 150 anos atrás, ao reclamar do cardápio imperial para a quaresma de 1858. Muito gulosa, a filha do Imperador Dom Pedro II tinha uma queda por doces de ovos, sorvetes e não resistia a um pão-de-ló acompanhado de chá. Por conta do paladar calórico, a primeira Senadora do Brasil, que se notabilizou por assinar a Lei Áurea e abolir a escravidão no País, freqüentemente confessava em suas cartas uma preocupação com o peso. Os hábitos alimentares da Princesa e de outros personagens históricos da Famílias Imperial Brasileira e Real portuguesa – que há 200 anos, a serem completados em março, aportaram no Brasil – estarão reunidos em um livro.

Sob o título Banquetes reais (ainda provisório), a obra editada na forma de romance histórico será lançada no segundo semestre do ano pela Jorge Zahar Editor. “Acho que sou uma encarnação da princesa Isabel”, diverte-se a historiadora portuguesa Ana Roldão, que assina o livro junto com o jornalista Edmundo Barreiros. “Gosto de todas as comidas que ela apreciava”, completa a escritora e pesquisadora de gastronomia dos séculos XVIII e XIX e da arte da mesa.

Há 14 anos no Brasil, Ana é gerente de negócios do Museu Imperial de Petrópolis (RJ) e, ao inaugurar um bistrô no local, passou a ouvir das pessoas: “O que o Imperador comia? E a Imperatriz?” Debruçada há um ano sobre anotações de viagens, de despensa, correspondências, livros de receitas e cadernos de mordomia, levantou banquetes, cardápios e as mudanças na alimentação com a chegada da corte de além-mar. “Goiaba e aguardente de cana, que era adicionada a frutas frescas, passaram a constar na alimentação dos portugueses”, conta ela.

Dom João VI e sua esposa, Carlota Joaquina, não dividiram o mesmo teto no Brasil. A mesa de jantar de cada um deles, porém, era composta de 12 pratos – duas terrinas de sopa, um cozido, um arroz, quatro guisados, dois assados e duas massas, além de fruta, pão, queijo e doce. Um banquete, por sua vez, chegava a dispor de 30 pratos diferentes. O Rei de Portugal foi o que mais se rendeu às iguarias do Brasil. “Dom João descascava cinco mangas depois de comer três frangos”, conta Ana. “Eu vi a camisola de dom João que está sendo restaurada e estará em uma exposição futura. Dá para ver que ele era um homem grande e aí entende-se o tamanho de seu apetite.”

Carlota, por sua vez, além de conspirar contra o marido e tentar tirá-lo do trono várias vezes, é famosa pela predileção por cachaça. “Ela costumava misturar aguardente de cana com frutas, mas também a usava para conservar alimentos. Um escrito revela que era destinada ao quarto e à cozinha dela uma grande quantidade de aguardente”, afirma a historiadora.


Ana explica que foi com Dom Pedro II, em 1838, que o consumo de massa entrou no cardápio. A Casa Imperial contava com um fornecedor oficial para o alimento, que tinha no talharim o tipo preferido na corte. Dom Pedro I, “o rapaz das cavalariças”, como diz Ana no bom português de Portugal, era avesso à pompa à mesa. “Ele comia arroz com feijão para mostrar que gostava de comida trivial brasileira, cujo tripé é arroz, feijão e mandioca”, conta ela. O Imperador, célebre pelo grito da Independência, casou- se em 1818 com Dona Leopoldina, que desembarcou no Brasil um ano antes trazendo na bagagem seus alimentos preferidos conservados pela salga. Vieram: salmão, atum, pescada, carne de porco, ervilha, feijão verde, alcachofras em azeite e, enfim, o bacalhau – talvez o único peixe que a Princesa Isabel não chiava para saborear.

Dom João VI conseguia comer cinco mangas após três frangos

Sobremesa Imperial
Fatias à Pompadur é uma sobremesa do século XIX, um tipo de fatia dourada (denominação portuguesa) ou rabanada. Leia a receita:

“Cortado o miolo de pão em bocados redondos ou quadrados, da grossura de dous ou tres dedos, deite-se por um instante de môlho em vinho branco da Madeira, ou em qualquer outro vinho branco; passem-se depois de escorridos, por ovos batidos, frijão-se, e repitão o mesmo duas ou tres vezes, como acima foi dito; depois de fritas, e de boa cor, sirvão-se com calda de vinho do Rheno, e assucar em ponto.N.B. Todas as fatias se podem fazer, molhando-se em água, leite, ou em o liquor que quizerem.”*

FONTES:

  • Cozinheiro Imperial, Biblioteca do Museu Imperial;
  • goo.gl/ZXuw1G

SOBRE A ELITE - POR BRUNO HELLMUTH

Bruno Hellmuth é chanceler do Círculo Monárquico do Rio de Janeiro

No uso corrente da língua portuguesa no Brasil, tem-se observado, sobretudo nas últimas décadas, uma sistemática deturpação no emprego do vocábulo elite. Aceita-se como normal hoje em dia, que nas línguas vivas ocorram constantes evoluções,  com a criação de novos vocábulos, abandono de alguns e, ainda mudanças de significado de outros.

A palavra elite entrou para o nosso vocabulário como um galicismo, e  deriva originariamente do latim eligere que designava os eleitos ou selecionados.  Segundo os melhores dicionários, elite significa o que há de melhor dentro de uma sociedade ou grupo.  Corresponde, portanto, ao termo grego aristo o qual compõe a palavra aristocracia, o governo pelos melhores.

Se por um lado continua valendo este significado quando se fala em tropas de elite,  assim como de uma elite de atiradores, de atletas, de juristas, de médicos, intelectuais, etc…por outro, nos discursos políticos, pelo menos no Brasil, o termo tem sido empregado como referência à camada mais rica e poderosa da sociedade, estando muitas vezes implícito uma imagem negativa, de frivolidade e egoísmo deste segmento social.  Fernando Collor de Melo, no início de seu mandato como Presidente da República, afirmou que o Brasil possuía uma elite medíocre.  Ora, de acordo com o significado tradicional da palavra, como consta nos léxicos, os medíocres não podem ser elite.  Já encontramos também, em artigo de jornal  de alta circulação,  referência a uma elite virtuosa, o que nos parece um flagrante pleonasmo, como se pudesse existir uma elite não virtuosa.

Algumas pessoas encontram-se no topo da pirâmide social por herança, ou lá chegaram através de golpes desonestos ou até mesmo de sorte.  Outros, porém, alcançaram este topo por méritos, por terem tido acesso às melhores escolas e faculdades, por esforço, talento e criatividade.  Estes, em geral,  estão incluídos nas elites de suas respectivas profissões, mas não compõem necessariamente a elite social.  Nem sempre aqueles que se destacam profissionalmente são os mais virtuosos elementos da sociedade e, inversamente,  podemos encontrar membros da elite em meios menos abastados.  Devemos catalogar como elite as pessoas de padrões de vida modestos, ou que até fazem votos de pobreza, e que dedicam suas vidas à educação, proteção, ou apoio espiritual aos elementos mais frágeis da sociedade.

No nosso entender,  compõem a elite social aqueles que, além de suas competências e talentos, demonstram com palavras e atos sua preocupação com o destino de seus semelhantes menos favorecidos ou menos preparados.  Aqueles que,  além de suas atividades profissionais, lideram associações,  presidem clubes, organizações não-governamentais, ou assumem liderança política, visando o bem da sociedade e procurando transformar a realidade de modo positivo.  Em outras palavras, pegando emprestado os conceitos emitidos por  James C. Hunter, autor de O Monge e o Executivo, a verdadeira elite é formada por indivíduos para os quais liderança não significa poder e direito a privilégios, e sim autoridade, responsabilidades e sacrifícios permanentes.  Pessoas que vêem suas particulares condições financeiras, profissionais e sociais, como fonte primeira de um dever social, que alia a necessidade de retribuição à sociedade e ao país pelos privilégios legítimos alcançados, à consciência do dever fazer, dever construir em prol dos seus semelhantes, da sua comunidade, do seu país e da humanidade.  Nesse sentido, vemos que a elite se caracteriza pela generosidade, pelo amor ao próximo e o amor à pátria.  Podemos afirmar com segurança, felizmente, que pessoas com estas características existem em nosso país, embora em número menor do que gostaríamos.

Na procura pelas razões da deturpação do conceito de elite, especìficamente no Brasil, ocorreram a nós duas explicações, sendo as duas baseadas em acontecimentos históricos.

Se na segunda metade do século XIX a população brasileira, de um modo geral, percebia uma forte ação do poder constituído em favor do desenvolvimento social, envolvendo investimentos na educação, cultura, e, principalmente, não esqueçamos, a articulação política pela abolição da escravidão, após o golpe republicano de 1889, as oligarquias, agora livres do antigo poder moderador, preferiram frear os avanços sociais planejados, a favor da manutenção de um sistema de castas que garantisse a abundância de mão de obra barata e desqualificada para as monoculturas, a indústria incipiente e para o serviço doméstico.  Foi, portanto natural que a base da sociedade passasse a enxergar nas classes dominantes apenas o poder, e não mais a autoridade, liderança e proteção.  Com a classe dominante não se identificando com o povo, a palavra elite, para a ampla massa, perdia o seu sentido,  passando a ser aplicada para designar o grupo de pessoas de alto poder aquisitivo e hábitos refinados, em geral, de pele clara.

Com a avassaladora propaganda, a partir do final da 1ª Grande Guerra,  da ideologia socialista, e que até hoje impregna nossos meios acadêmicos,  passou-se a, absurdamente, negar os princípios científicos darwinianos, de que entre humanos haja diferenciação tanto genética como adquirida.  Para eliminar contradições nesta ideologia, o conceito de elite não poderia mais ser admitido,  e o significado da palavra tinha que ser forçosamente deturpado. As esquerdas passaram a utilizar o termo como sinônimo de burguesia, com sentido depreciativo, ou até como insulto.

Acontece que, segundo as leis da biologia, a diversidade de caracteres dentro de uma mesma espécie, mesmo a humana, é essencial para sua própria sobrevivência.  Na sociologia, certamente encontrar-se-ão leis análogas.  Mas, ninguém em sã consciência, defenderá a volta da lei da selva,  segundo a qual só os mais fortes e melhor adaptados sobrevivem.  O mais sensato, e o que já é praticado pelas sociedades em estágio civilizatório mais evoluído, é se garantir a igualdade de oportunidades e de direitos, com investimento em educação e saúde igual para todas as crianças e adolescentes.  Porém, mesmo com estas garantias, inevitavelmente,  as pessoas continuarão se diferenciando, seja por influências do meio, seja por maior talento, ambições, disciplina ou senso humanitário.


Segundo aquela  mentalidade igualitarista, não se admite tampouco que possa existir uma família ocupando a chefia de estado de geração em geração, que pela tradição multicentenária ou até milenar encarna os mais altos padrões de educação, virtudes, de cultura e conduta,  nos quais o povo gostaria de se espelhar, e que serviria de estimulo à formação e crescimento da verdadeira elite.  Ao contrário, os adeptos do igualitarismo radical,  preferem recusar a idéia de uma família modelo, com as características mencionadas,  e se ufanar de um falso sinal de democracia, que seria a possibilidade de qualquer cidadão,  mesmo sem maior cultura e menos convicto dos valores morais tradicionais ocupar o mais alto cargo da nação.  Na verdade,  a maioria dos brasileiros, um ex-presidente da república inclusive, ignora a diferença entre estado e governo.  Deverá ser consenso que qualquer cidadão,  mesmo sem maior titulação acadêmica,  mas com boa carreira política,  pode vir a ocupar com eficiência a chefia do governo, como ocorre nos sistemas parlamentares.  A chefia de estado, porém, de preferência dotada de poder moderador, deveria ser reservada à nata da elite.  Tivemos, no Brasil,  a figura de D.Pedro II, como exemplo maior deste modelo.  Nosso país necessita com premência de um intenso esforço em prol da educação e cultura do povo, até mesmo para resgatar o verdadeiro sentido de elite.

FONTE: goo.gl/iPN5Na