Sim, em teoria todo regime deveria lutar pela melhoria das condições sociais, mas as dificuldades são maiores pela politicagem e pela corrupção que gira em torno das verbas destinadas às obras públicas, sem a supervisão do Estado.
Na Monarquia Constitucional Parlamentarista, além da divisão entre os Três Poderes, que se fiscalizam mutuamente, há um quarto Poder, o Moderador, que garante a estabilidade e continuidade do governo e é utilizado para sanar crises e impasses políticos, dissolvendo o Parlamento e convocando novas eleições, além fiscalizar os outros Poderes, evitando casos de corrupção entre eles, supervisionando as obras públicas. Este quarto Poder é prerrogativa do Chefe de Estado, o Monarca, que é apartidário e representante da nação como um todo.
- Baseado em trechos do livro “O que é Monarquia”, do Prof. Rogério da Silva Tjäder.
terça-feira, 8 de agosto de 2017
Se a Monarquia é a melhor forma de governo, por que a maioria das nações prefere o sistema republicano?
A inovação da liberal-democracia no século XIX despertou o desejo de uma novidade. Aliás, como já citava o Papa São Pio X, “o amor das novidades basta, por si só, para explicar toda sorte de erros”. Mas à medida que se constatam as falhas do regime adaptado, as nações mais perspicazes retornam à sua antiga forma de governo e com grande vantagem. No caso, a Espanha que somente encontrou estabilidade política e democracia com a restauração monárquica e a Romênia, que começa a discutir uma consulta popular sobre sua forma de governo.
Observa-se que atualmente os países com melhores índices de IDH e os menores de corrupção, por exemplo, são Monarquias Constitucionais Parlamentaristas. Comprovando o fato que a Monarquia, somada ao Parlamentarismo, garante o regime democrático, estabilidade, gerando crescimento econômico e social, além de assegurar um controle maior para as instituições e nos confrontos entre os Poderes, evitando os casos de corrupção.
- Baseado em trechos do livro “O que é Monarquia”, do Prof. Rogério da Silva Tjäder.
Observa-se que atualmente os países com melhores índices de IDH e os menores de corrupção, por exemplo, são Monarquias Constitucionais Parlamentaristas. Comprovando o fato que a Monarquia, somada ao Parlamentarismo, garante o regime democrático, estabilidade, gerando crescimento econômico e social, além de assegurar um controle maior para as instituições e nos confrontos entre os Poderes, evitando os casos de corrupção.
- Baseado em trechos do livro “O que é Monarquia”, do Prof. Rogério da Silva Tjäder.
sexta-feira, 4 de agosto de 2017
CIRCUITO DE ITAPECERICA: A PRIMEIRA PROVA AUTOMOBILÍSTICA NO BRASIL
O Fait de Penteado: média de 50Km/h
São Paulo era uma festa só em 26 de julho de 1908. Naquele domingo, foi disputada a primeira prova automobilística em território nacional, no chamado Circuito de Itapecerica. Mais de 10 mil pagantes testemunharam o evento, pagando 2 mil-réis cada. Os moradores de Embu, Itapecerica da Serra e Santo Amaro, entretanto, não precisaram desembolsar um tostão sequer, pois o traçado da corrida passava por essas localidades.
Promotor do espetáculo, o Automóvel Club de São Paulo, fundado 15 dias antes, permitiu a participação de 14 carros e duas motocicletas. O Dietrich Lorraine do piloto Jorge Haentjens era o único da categoria E, mais de 45 hp, e por isso foi considerado hors concours. Largou em primeiro, sendo seguido, com intervalos de 5 a 8 minutos, pelos competidores das categorias D (até 40 hp), C (20 a 30), B (8 a 9) e A, reservada às motocicletas.
O calçamento foi especialmente reforçado para a prova, cuja largada foi dada às 12h55. Em Santo Amaro, o piloto Gastão Almeida abriu uma vantagem de 5 minutos em relação aos demais concorrentes da categoria D, mas o reservatório de óleo de sua Dietrich-Lorraine caiu a 6 quilômetros da chegada. Gastão teve de tirar o pé do acelerador e foi ultrapassado pelo Fiat de Sílvio Alvares Penteado, vencedor da prova. Sílvio percorreu os 75 quilômetros do circuito em 1h30m5s, estabelecendo uma média de "incríveis" 50 km/h.
Cartaz de comemoração de 100 anos da primeira corrida de automóvel da América do Sul,
realizada no circuito de Itapecerica
LINK ORIGINAL: NETLELAND
DETROIT PAULISTA
Pioneiro: Claudio Bonadei e família no primeiro carro contruido no Brasil
Em 1891, o vapor Portugal atracou no porto de Santos trazendo em seus porões uma novidade que, em pouco tempo, iria mudar o cotidiano dos paulistas. Enquanto os parentes e amigos dos passageiros recebiam as últimas notícias da Europa, o futuro desembarcava do navio com um ruído ritmado e característico, apoiando-se sobre quatro rodas de arame e, o que era mais fantástico na época, deslocando-se sem a necessidade de uma parelha de cavalos! Tratava-se de um pequeno e simpático Peugeot. Quem trouxe a voiturette (carrinho) da França foi Alberto Santos Dumont, futuro Pai da Aviação. Filho do fazendeiro de café Henrique Santos Dumont, ele acompanhou o pai em uma viagem à Europa e se apaixonou pelos veículos movidos a motores de combustão interna. "Os automóveis eram muito raros em Paris em 1891 e tive de ir à usina de Valentigney para comprar minha primeira máquina, um Peugeot de rodas altas, de 3,5 cavalos de força. Daí para a frente tornei-me adepto fervoroso do automóvel. Entretive-me em estudar os seus diversos órgãos e a ação de cada um. Aprendi a consertar a máquina e quando, ao fim de sete meses, minha família voltou ao Brasil, levei comigo minha Peugeot", contou o inventor, em suas memórias.
Henrique Santos Dumont e seu Peugeot
O certo é que a família Dumont gostou da novidade. Tanto é que em 1893 Henrique já desfilava pelo Centro da cidade a bordo de um reluzente Daimler. Cinco anos depois, outro Peugeot ganhou as ruas da Capital. Seria o terceiro automóvel a rodar por São Paulo ou o velho carro de Alberto Santos Dumont com um novo dono ao volante? Mistério...
Automóvel de Placa No. 1, do Conde Francisco Matarazzo
Em 26 de outubro de 1900, o prefeito Álvaro Ramos promulgou a lei 493, que regulamentava o pagamento de uma taxa obrigatória pelos proprietários de automóveis. Em 1903, seu sucessor, Antônio Prado, baixou o ato 146, tornando obrigatórios o licenciamento e a inspeção dos veículos e estabelecendo também o limite máximo de velocidade no município, 30 km/ h em áreas descampadas.
Henrique Dumont recusou-se a licenciar seu carro e, desse modo, a chapa número 1 ficou com o conde Francisco Matarazzo, que a manteve até sua morte. O primeiro condutor a ser examinado, contudo, foi Menotti Falchi, que viera da Itália no final do século 19 para dirigir, com seu irmão José, a Fábrica de Chocolates Falchi. Menotti recebeu a primeira "carta de condutor" em 1904, quando havia cerca de 83 carros registrados na Capital.
Fundo de quintal - No início do século, o automóvel era um privilégio de poucos, mas um imigrante italiano que chegou a São Paulo em 1899 quebrou esse tabu. Decidido a ter seu próprio carro, Cláudio Bonadei dedicou-se à construção daquele que é considerado o primeiro veículo nacional movido a um motor de combustão interna. Mecânico da seção de máquinas da companhia Singer, ele era um homem do povo, casado, com dois filhos e uma modesta renda mensal. Mas havia cursado Engenharia em Pádua, na Itália, o que lhe possibilitou realizar seu sonho, igualando-se aos figurões da época.
Juntando todas as suas economias, o italiano conseguiu adquirir um velho modelo francês bastante desatualizado. De posse do carro, desmontou-o e, nas horas de folga, consertou a parte mecânica e construiu uma nova carroceria. Em 1905 (ou 1908, pois os registros históricos variam conforme a fonte), o carro finalmente ficou pronto e, curiosamente, Bonadei percebeu que este não passaria pela porta de sua oficina, o que o obrigou a derrubar a parede da mesma para retirar a volturette. Finalmente, o veículo subiu a ladeira São João, entre a rua Libero Badaró e o largo do Rosário, onde o imigrante foi ovacionado pela multidão devido a seu "feito heroico". Afinal de contas, era a primeira vez que um proletário se equiparava aos poderosos da época.
Fabricar automóveis, no entanto, nunca foi uma atividade para empreendimentos de fundo de quintal. Assim, no final da primeira década do século, uma nova marca começou a ganhar terreno, abrindo vantagem em relação aos delicados modelos europeus e oferecendo ao público um veículo mais simples e com manutenção infinitamente mais barata: a Ford e seu Modelo T, o carro que ficaria famoso por ter "dado rodas à América". A aceitação foi tão grande que, no fim da década seguinte, Henry Ford resolveu criar uma filial de sua empresa no Brasil. Com capital inicial de US$ 25 mil, logo depois aumentado para US$ 30 mil, em 1° de maio de 1919 foram instalados uma linha de montagem de componentes importados e um escritório na rua Florêncio de Abreu, Centro da Capital. No ano seguinte, mudou-se para a praça da República e, em 1921, para a rua Sólon, no Bom Retiro.
A Fábrica da Ford no Bom Retiro
Linha da Ford: O modelo T fez história
A Ford, contudo, não ficou sozinha por muito tempo. Em 1925, chegou ao País a General Motors, sua maior rival, que, com um capital inicial de ÜS$ 270 mil, se instalou na avenida Presidente Wilson, 2.315. Em setembro daquele ano, tinha início a montagem de veículos importados, inicialmente 25 carros por dia, depois 40 no ano seguinte. Em 1927, após ter montado cerca de 25 mil automóveis, a empresa passou a se dedicar à construção de uma nova fábrica, instalada em São Caetano do Sul, com área coberta de 45 mil metros quadrados. Inaugurada em 1929, a unidade possibilitou à multinacional americana montar 100 veículos por dia, e até hoje (2010), ainda utiliza esta fábrica, sendo sua sede Central no Brasil.
Linha de Montagem da GM na Av.Presidente Wilson e em São Caetano
LINK ORIGINAL: NETLELAND
quinta-feira, 3 de agosto de 2017
FORDLANDIA: UMA CIDADE AMERICANA NA AMAZÔNIA

No começo do século XX, as linhas de produção de Henry Ford construíam carros a uma velocidade jamais vista. Todos aqueles carros precisavam de pneus, e na época a borracha ainda era derivada das seringueiras do Sudeste Asiático. Para manter a eficiência de sua produção sem depender dos asiáticos, Ford decidiu ter sua própria produção de látex, e para isso construiu uma cidade tipicamente americana em plena Amazônia, batizada de Fordlândia.
A história de Fordlândia começou em 1927, quando Henry Ford adquiriu um terreno de quase 15.000 km² às margens do Rio Tapajós, no Pará. Anos antes, o departamento de comércio dos EUA haviam feito um estudo de viabilidade de cultivo de seringueiras no Brasil com resultados positivos.
No ano seguinte ele enviou suprimentos e funcionários para criar uma típica cidade americana no local. Em pouco tempo a cidade ficou pronta, com escolas, eletricidade, saneamento, clube social/recreativo e um hospital (onde viria a ser feito o primeiro transplante de pele no Brasil). O empreendimento, como se diz hoje, tinha tudo para dar certo se não fossem dois graves problemas.
O ciclo da borracha no Brasil viveu seu auge entre 1879 e 1912 — quinze anos antes da compra da área por Ford —, e entrou em declínio depois que os britânicos levaram 70.000 sementes de seringueira da Amazônia para o Sudeste da Ásia e começaram a produzir látex com maior eficiência e produtividade devido às condições do solo.
Para deixar a situação ainda pior, Ford tentou impor a cultura americana de trabalho aos brasileiros, fornecendo uma alimentação tipicamente norte-americana, casas americanas, e os obrigava a usar crachás e a trabalhar sob um modelo ao qual não estavam habituados. Isso causou a insatisfação dos funcionários, que resultou em baixa produtividade e conflitos. O mais marcante deles aconteceu em 1930, quando os funcionários se revoltaram contra a dieta americana, que incluía espinafre e até hambúrgueres.
Os americanos não tinham conhecimento prático algum em botânica e, além de não conseguiram prever o fungo do mal-das-folhas, as seringueiras eram plantadas muito próximas entre si, o que as tornava um alvo fácil para pragas, que dizimaram as plantações. A Ford ainda tentou realocar as plantações em Belterra, onde foi construída uma segunda cidade, mas em 1945, com o surgimento da borracha sintética — feita com derivados de petróleo — o empreendimento já não havia mais razão de existir e foi cancelado pelo presidente da companhia, Henry Ford II.
O Governo Brasileiro indenizou a Ford em aproximadamente US$ 250.000, e ainda assumiu as dívidas trabalhistas com os trabalhadores. Em troca, recebeu seis escolas (quatro em Belterra e duas em Fordlândia); dois hospitais; estações de captação, tratamento e distribuição de água nas duas cidades; usinas de força; mais de 70 quilômetros de estradas; dois portos fluviais; estação de rádio e telefonia; duas mil casas para trabalhadores; trinta galpões; centros de análise de doenças e autópsias; duas unidades de beneficiamento de látex; vilas de casas para a administração; um departamento de pesquisa e análise de solo; e a plantação de 1.900.000 seringueiras em Fordlândia e 3.200.000 em Belterra.
Após a desativação do projeto, os antigos trabalhadores da Ford preferiram ficar estabelecidos na localidade, visto que era dotada de grande infra-estrutura. Este fato atraiu também moradores do entorno, que viram a oportunidade de fixar residência na localidade, após o abandono de muitas edificações em boas condições.
A economia de Fordlândia passou a depender, desde então, da agropecuária, do extrativismo e da pesca. O boom agropecuário ocorreu com maior intensidade com a abertura, na década de 1970, da rodovia Cuiabá-Santarém, que trouxe para a região uma nova fronteira agrícola. A fronteira atraiu para o entorno de Fordlândia, na década de 2000, as grandes áreas cultivadas de soja, transformando profundamente a economia local.
Embora seja caracterizada na imprensa como "cidade fantasma", o distrito possui moradores fixos e permanentes. Em 2010 o IBGE contabilizou cerca de 1200 residentes somente na vila, números que somados ao território total do distrito chega a cerca de 2000 moradores em Fordlândia.



















LINK ORIGINAL - Flat Out
terça-feira, 1 de agosto de 2017
De pai para filho: família que está há 196 anos no Congresso prepara dois sucessores
Bonifácio de Andrada representa a quinta geração da família
do Patriarca da Independência na Câmara
Descendente de José Bonifácio de Andrada, o Patriarca da Independência, o deputado tucano prepara um filho e um neto para sucedê-lo na Câmara. Desde 1894 não houve uma legislatura sequer em que um Andrada tivesse ficado de fora do Congresso.
“É o DNA que empurraram pra cima da gente e a psicologia do cenário. Tal como o filho de carpinteiro tem mais habilidade para mexer com serrote e martelo, o filho de político também tem para a vida pública”, diz Bonifácio. Da família dele saíram 15 deputados e senadores, quatro presidentes da Câmara, oito ministros de Estado e dois ministros do Supremo, além de governadores, prefeitos e vereadores.
O levantamento revela que seis em cada dez congressistas têm parentes na política. Esse é um dos principais assuntos da nova edição da Revista Congresso em Foco. Para acessar o conteúdo completo da publicação, clique aqui.
Já no PT, o caso mais expressivo é o da família Tatto. O deputado Nilto Tatto (SP) tem quatro irmãos políticos: dois são vereadores em São Paulo, um é deputado estadual e outro foi deputado federal. Procedentes de uma família de pequenos agricultores do Paraná, eles se estabeleceram em uma das regiões mais pobres da capital paulista, a Capela do Socorro, onde começaram a militância na Igreja Católica. Dos dez irmãos Tatto, nove são filiados ao PT.
A regra e as exceções
Os três representantes de dez estados no Senado têm ou tiveram parentes políticos. No DEM, de Ronaldo Caiado (GO) e José Agripino Maia (RN), no PDT e no PR, ninguém foge desse perfil. A mesma situação se repete com 19 dos 22 peemedebistas. Já no PSDB, quem tem a árvore genealógica mais enraizada na política é o senador Cássio Cunha Lima (PB), filho do ex-senador Ronaldo Cunha Lima, pai do deputado Pedro Cunha Lima (PSDB-PB) e parente de quase uma dezena de outras lideranças.
Quatro senadores escolheram em casa os eventuais substitutos: Acir Gurgacz (PDT-RO) e Ivo Cassol (PP-RO) escalaram o pai como suplente; Eduardo Braga (PMDB-AM), a mulher e Edison Lobão (PMDB-MA), o filho. Todos já provaram o gostinho de ser senador.
Dez das 13 senadoras também têm parentesco político. Somente Fátima Bezerra (PT-RN), Regina Sousa (PT-PI) e Lídice da Mata (PSB-BA) escapam à regra. Professora, Fátima é a exceção que confirma a regra em seu estado. “Sou a primeira representante de origem popular do Rio Grande do Norte nos últimos 50 anos. Isso evidencia o quanto o tradicionalismo e o patrimonialismo estão presentes na política. A maioria dessas famílias têm o controle dos meios de comunicação e dinheiro. Não é razoável que o parentesco seja traço marcante na nossa política”, critica.
LINK ORIGINAL - CONGRESSO EM FOCO
segunda-feira, 31 de julho de 2017
O que Charles Darwin viu no Brasil
Foi na Bahia e no Rio que o naturalista se deparou pela primeira vez com a diversidade da floresta tropical e também se chocou com a escravidão: pontos tidos como cruciais para a elaboração de sua revolucionária teoria.
Charles Darwin vinha de uma família liberal e antiescravagista, mas nunca tinha visto a escravidão de perto. A ideia de que a postura antiescravagista de Darwin estaria na origem da Teoria da Evolução é defendida por dois grandes especialistas na obra de Darwin e biógrafos do naturalista, Adrian Desmond e James Moore, no livro A causa sagrada de Darwin.
"Vivenciar a escravidão desta forma e constatar a diferenciação absurda feita entre seres humanos certamente o impactou bastante”, sustenta Moreira. "Ele cita muitas vezes exemplos claros de crueldade contra escravos e dá para notar claramente a irritação dele ao discutir a escravidão com Fritz-Roy.”
Poucos dias depois da chegada de Darwin ao Rio, o naturalista escreve que conheceu um inglês que se preparava para visitar suas propriedades, "situadas a pouco mais de 100 milhas (160 km) da capital", ao norte de Cabo Frio. "Ele teve a gentileza de me convidar como companhia, o que aceitei com prazer”. A expedição começou no dia 8 de abril. Darwin conta que, em meio a um calor intenso, o silêncio da mata era completo, "quebrado apenas pelo voo preguiçoso das borboletas”.
Já neste primeiro dia, o grupo passou por uma fazenda na Lagoa de Maricá. Lá ele ouviu uma história que reproduz em seus escritos.
Um grupo de capatazes teria sido enviado em busca dos escravos fugitivos e todos eles acabaram se rendendo, encurralados junto a um precipício, à exceção de uma mulher, já de uma certa idade, que preferiu se lançar para a morte. "Praticado por uma matrona romana, esse ato seria interpretado e difundido como amor à liberdade”, escreveu Darwin. "Mas da parte de uma pobre negra, se limitaram a dizer que não passou de um gesto bruto."
"Jamais voltaria"
Outra história chamou muito a atenção de Darwin, desta vez numa fazenda em Conceição do Macabu, no interior do estado.
"Ele fica particularmente chocado ao ver um capataz ameaçar separar uma família como forma de punição”, conta Kátia Leite Mansur, do Departamento de Geologia da UFRJ, uma das idealizadoras do projeto Caminhos de Darwin, que mapeou toda a região por onde o naturalista passou em sua expedição. "Ele escreve que além do uso da força, é um dos castigos mais cruéis. E diz que jamais voltaria a um país em que houvesse escravidão.”
Em 2009, por conta dos 200 anos do nascimento do naturalista, 12 placas foram instaladas ao longo do percurso com informações sobre a sua passagem. Ainda em 2017, Kátia espera inaugurar seis grandes painéis com informações geológicas. Há ainda o projeto de se construir um espaço Darwin na Fazenda Campos Novos, entre Cabo Frio e Búzios, um dos pontos de pouso do naturalista. A fazenda, do século 18, é tombada pelo patrimônio, mas precisa de reformas. Trata-se da mais antiga fazenda jesuíta que resta em pé no país.
"Darwin ficou muito tempo no Rio, onde fez observações sociais, levantou questões relativas à escravidão, e ainda coletou muita coisa, descreveu muitas plantas, bichos e rochas”, resume Katia. "O tempo que passou no interior viu coisas que nunca tinha visto, restingas, borboletas. Também descreve os lugares por onde passa, as hospedarias, igrejas, as comidas, as pessoas. E é um relato muito poético, muito bonito.”
A viagem do Beagle estava prevista para durar apenas dois anos, mas acabou se prolongando por quase cinco, com uma volta ao mundo, que incluiu as passagens mais conhecidas da expedição do naturalista pelas Ilhas Galápagos e a Patagônia. Quando finalmente voltou à Inglaterra, Darwin já era famoso por conta das amostras que mandava regularmente a seu país.
Ao que tudo indica, não foi apenas a visão dos tentilhões e dos fósseis de mamíferos gigantes que forjaram a mais revolucionária das teorias científicas, mas também a exuberância da floresta tropical brasileira e os horrores da escravidão.
LINK ORIGINAL - Deutsche Welle
Escravos no Brasil, em pintura de 1835: Darwin cita muitas vezes exemplos claros de crueldade contra negros
A passagem Charles Darwin (1809-1882) pelo Brasil pode ter sido muito mais importante para a Teoria da Evolução das Espécies do que se costuma imaginar. Muito se fala sobre as observações feitas pelo naturalista britânico nas Ilhas Galápagos e na Patagônia argentina. Mas foi em solo brasileiro, há 185 anos, que ele se deparou pela primeira vez com a diversidade da floresta tropical e também se chocou com a escravidão – reforçando suas convicções abolicionistas de que todos os seres humanos compartilham a mesma linhagem sanguínea em razão da ancestralidade comum.
Os dois pontos, segundo especialistas, foram cruciais para a elaboração da revolucionária teoria que separou, pela primeira vez, a ciência da religião, lançada, em 1859, no livro A origem das espécies. Segundo a Teoria da Evolução, todas as espécies evoluem a partir de mutações aleatórias e da seleção natural dos mais bem adaptados. E o homem é ligado a todos os outros animais por descender de um ancestral comum ao dos macacos e, por isso, não poderia haver diferenciação entre raças.
O HMS Beagle, comandado pelo capitão Fitz-Roy, partiu de Davenport, na Inglaterra, em 27 de dezembro de 1831, para uma viagem ao redor do mundo que duraria cerca de cinco anos.
A bordo estava o jovem naturalista Charles Darwin, de apenas 22 anos. Depois de passar por Cabo Verde, o navio seguiu para o arquipélago brasileiro de São Pedro e São Paulo e para Fernando de Noronha, antes de parar na Bahia. No livro Viagens de um naturalista ao redor do mundo, Darwin dedica cerca de dez páginas a sua passagem por Salvador, aonde chegou em 29 de fevereiro de 1832.
Embora a estadia na capital baiana tenha sido curta, Darwin passeou pela cidade e chegou mesmo a explorar um pouco do interior, coletando amostras de plantas, insetos e até um lagarto. Num dos trechos de seu diário, ele nota que coletou uma grande quantidade de flores tão brilhantes e coloridas, que seriam capazes de fazer um "florista enlouquecer”. Ainda na cidade, Darwin enfrentou pelo menos duas experiências que considerou assustadoras: uma forte tempestade tropical e o carnaval de rua de Salvador – em que foi acertado pelas bolas de cera recheadas de água, o chamado limão de cheiro, usado na época nos festejos.
Em suas anotações ele ressalta que todo o trabalho braçal era feito por negros, registra relatos de escravos e se refere aos ingleses preconceituosos como "selvagens polidos”.
"De onde vem a diversidade?"
Em 4 de abril, o navio chegou ao Rio de Janeiro, onde o naturalista ficaria por mais de quatro meses. Um capítulo inteiro de seu livro é dedicado a este período em que fez uma longa incursão pelo interior do estado, coletando dados geológicos, amostras de plantas e animais e, como sempre, histórias do horror da escravidão.
"O impacto da passagem de Darwin pelo Brasil não foi pequeno e motivou a pergunta ‘de onde vem a diversidade?'”, afirma o presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Ildeu Moreira, que está terminando de organizar um livro reunindo todos os escritos de Darwin sobre o Brasil, entre relatos de viagens e cartas. "Em vários trechos ele diz que uma das coisas que mais o impressionaram foi a diversidade da natureza tropical que viu em Salvador e no Rio.”
Charles Darwin, retrato de 1880: passagem pelo Brasil motivou a pergunta ‘de onde vem a diversidade?'"
"Vivenciar a escravidão desta forma e constatar a diferenciação absurda feita entre seres humanos certamente o impactou bastante”, sustenta Moreira. "Ele cita muitas vezes exemplos claros de crueldade contra escravos e dá para notar claramente a irritação dele ao discutir a escravidão com Fritz-Roy.”
Poucos dias depois da chegada de Darwin ao Rio, o naturalista escreve que conheceu um inglês que se preparava para visitar suas propriedades, "situadas a pouco mais de 100 milhas (160 km) da capital", ao norte de Cabo Frio. "Ele teve a gentileza de me convidar como companhia, o que aceitei com prazer”. A expedição começou no dia 8 de abril. Darwin conta que, em meio a um calor intenso, o silêncio da mata era completo, "quebrado apenas pelo voo preguiçoso das borboletas”.
Já neste primeiro dia, o grupo passou por uma fazenda na Lagoa de Maricá. Lá ele ouviu uma história que reproduz em seus escritos.
Um grupo de capatazes teria sido enviado em busca dos escravos fugitivos e todos eles acabaram se rendendo, encurralados junto a um precipício, à exceção de uma mulher, já de uma certa idade, que preferiu se lançar para a morte. "Praticado por uma matrona romana, esse ato seria interpretado e difundido como amor à liberdade”, escreveu Darwin. "Mas da parte de uma pobre negra, se limitaram a dizer que não passou de um gesto bruto."
"Jamais voltaria"
Outra história chamou muito a atenção de Darwin, desta vez numa fazenda em Conceição do Macabu, no interior do estado.
"Ele fica particularmente chocado ao ver um capataz ameaçar separar uma família como forma de punição”, conta Kátia Leite Mansur, do Departamento de Geologia da UFRJ, uma das idealizadoras do projeto Caminhos de Darwin, que mapeou toda a região por onde o naturalista passou em sua expedição. "Ele escreve que além do uso da força, é um dos castigos mais cruéis. E diz que jamais voltaria a um país em que houvesse escravidão.”
Em 2009, por conta dos 200 anos do nascimento do naturalista, 12 placas foram instaladas ao longo do percurso com informações sobre a sua passagem. Ainda em 2017, Kátia espera inaugurar seis grandes painéis com informações geológicas. Há ainda o projeto de se construir um espaço Darwin na Fazenda Campos Novos, entre Cabo Frio e Búzios, um dos pontos de pouso do naturalista. A fazenda, do século 18, é tombada pelo patrimônio, mas precisa de reformas. Trata-se da mais antiga fazenda jesuíta que resta em pé no país.
"Darwin ficou muito tempo no Rio, onde fez observações sociais, levantou questões relativas à escravidão, e ainda coletou muita coisa, descreveu muitas plantas, bichos e rochas”, resume Katia. "O tempo que passou no interior viu coisas que nunca tinha visto, restingas, borboletas. Também descreve os lugares por onde passa, as hospedarias, igrejas, as comidas, as pessoas. E é um relato muito poético, muito bonito.”
A viagem do Beagle estava prevista para durar apenas dois anos, mas acabou se prolongando por quase cinco, com uma volta ao mundo, que incluiu as passagens mais conhecidas da expedição do naturalista pelas Ilhas Galápagos e a Patagônia. Quando finalmente voltou à Inglaterra, Darwin já era famoso por conta das amostras que mandava regularmente a seu país.
Ao que tudo indica, não foi apenas a visão dos tentilhões e dos fósseis de mamíferos gigantes que forjaram a mais revolucionária das teorias científicas, mas também a exuberância da floresta tropical brasileira e os horrores da escravidão.
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