quarta-feira, 27 de junho de 2018

COM TODA PROBABILIDADE SERÃO FUZILADOS

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"No dia 17 de maio, o bando mais intimidador até então de Guardas Vermelhos chegou à Casa do Governador, dessa vez de Ekaterimburgo, liderado por um homem chamado Rodiónov. Eram “os facínoras mais assustadores, sujos, esfarrapados, bêbados” que Gleb Bótkin [filho do médico da família] já vira.

Frio e desconfiado por natureza, Rodiónov vivia à procura de conspirações: ele ordenou uma humilhante chamada diária e as meninas tinham de lhe pedir permissão para descer e sair no pátio. Tinham ordens de manter a porta do quarto aberta à noite, assim, ouviam todo o tipo de obscenidades vindas dos guardas, na maioria, bêbados, que também faziam gestos e desenhos impróprios.

Quando um padre e as freiras chegaram no dia seguinte para conduzir as vésperas, postou uma sentinela ao lado do altar para observá-los durante a cerimônia. Kobilínski ficou chocado: “Isso oprimiu tanto todo mundo, teve tal efeito neles, que Olga Nikoláevna chorou e disse que se soubesse que isso aconteceria, nunca teria pedido a cerimônia”.

Alexei continuava extremamente frágil e mal conseguia sentar por mais do que uma hora seguida. Não obstante, três dias depois de chegar, Rodiónov decidiu que o menino estava bem o bastante para viajar. Por vários dias então a criadagem fizera os preparativos para a partida deles.

“Os quartos estão vazios, pouco a pouco todas as malas foram feitas. As paredes parecem vazias sem os retratos”, escreveu Alexei para sua mãe. Qualquer coisa que não fosse junto teria de ser “descartada” na cidade — se não tivesse sido pilhada pelos guardas antes [como eles tentaram fazer com os braceletes de ouro das meninas].

A maior parte da comitiva se preparou para partir com as crianças. A filha do dr. Bótkin, Tatiana, pediu que ela e o irmão recebessem permissão de ir com as três irmãs, mas isso lhes foi negado. “Por que uma garota bonita como você ia querer apodrecer a vida toda na prisão, ou mesmo ser fuzilada?”, escarneceu Rodiónov. “Com toda aprobabilidade serão fuzilados.”

Ele foi igualmente insensível quando contou a Aleksandra Tégleva sobre o que o futuro reservava: “A vida por lá é bem diferente”. Um dia antes da partida das crianças para Ekaterimburgo, Bótkin foi à Casa do Governador para tentar vê-las uma última vez.

Ele avistou Anastácia numa janela; ela acenou e sorriu, ao que Rodiónov veio correndo para lhe dizer que ninguém tinha permissão de olhar pelas janelas e que os guardas iriam atirar para matar se alguém tentasse fazê-lo. "

Fonte: As Irmãs Romanov, Helen Rappaport

LINK ORIGINAL - Romanov: A Última Dinastia da Rússia

EM UM ESTALO DE DEDOS


"O Manifesto Imperial de 30 de outubro de 1905 transformou a Rússia de uma autocracia absoluta em uma monarquia semiconstitucional. Prometia ao povo russo “liberdade de consciência, expressão, assembleia e associação”.

Garantia um parlamento eleito, a Duma, e que “nenhuma lei entraria em vigor sem o consentimento da Duma”. Não ia tão longe quanto a monarquia constitucional da Inglaterra; o czar mantinha suas prerrogativas de decisão sobre assuntos externos e de defesa, e o poder total de nomear e demitir ministros.

Mas o manifesto fez a Rússia voar, com grande rapidez, por cima de um difícil terreno político que a Europa ocidental levou séculos para atravessar. Witte agora se metera numa situação complicada. Tendo forçado um soberano relutante a autorizar uma Constituição, esperava-se que ele a fizesse funcionar.

Para desespero de Witte, ao invés de melhorar, a situação piorou. A direita o odiava por ter degradado a autocracia, os liberais não confiavam nele e a esquerda temia que a revolução esperada lhes escapasse das mãos.

Assim, irromperam pogroms contra os bodes expiatórios de sempre, os judeus, e outras minorias, e, vendo o manifesto como fraqueza, manifestações por independência irromperam pelo país, assim como violência pelas greves gerais, inspiradas pelos bolcheviques, e pela limitação dos poderes da polícia.

Enquanto isso, Nicolau esperava impaciente que seu experimento com o constitucionalismo desse resultados. À medida que Witte tropeçava, ele se tornava mais amargo. Antes de outubro de 1905, não havia partidos políticos na Rússia além do Social Democrata e do Revolucionário Socialista, ambos revolucionários e agindo na clandestinidade.

Nessas circunstâncias, era notável que dois partidos liberais sérios surgissem subitamente: o Constitucional Democrata, ou Cadete, liderado pelo historiador Paulo Miliukov, e o Outubrista, assim batizado por sua adesão ao manifesto de outubro de 1905, liderado por Alexandre Guchkov.

Entretanto, o abismo de entendimento entre monarquia e parlamento era grande demais. A Duma foi recebida pelo czar na sala do trono do Palácio de Inverno. Não foi uma ocasião promissora. Montes de policiais e soldados mantiveram-se de prontidão na praça defronte ao palácio.

Os deputados recém-eleitos, com trajes simples, permaneceram de um lado do salão, olhando fixamente para o enorme trono de ouro e carmesim, encarando a imperatriz e suas damas em vestidos formais da corte. Do outro lado, estavam a corte e os ministros, dentre eles o conde Fredericks.

“Os deputados”, ele disse, “dão a impressão de uma gangue à espera de um sinal para se atirarem sobre os ministros e lhes cortarem a garganta. Que rostos perversos! Eu nunca mais porei os pés no meio dessa gentalha.”

Os 524 membros mal haviam tomado seus lugares no salão do Palácio Tauride quando formularam um agressivo e devastador “Discurso ao Trono”. Para horror de Nicolau, exigiam sufrágio universal, reforma agrária radical, libertação de todos os prisioneiros políticos e demissão de todos os ministros nomeados pelo czar em favor de ministros aceitáveis pela Duma.

A um comando de Nicolau, os pedidos foram rejeitados. Estupefato com a cena de revolta, Nicolau estava mais do que decidido a acabar com a Duma, e, dias depois, as portas do Palácio Tauride foram fechadas e publicaram um decreto imperial dissolvendo a Duma.

Muito a contragosto, Nicolau abandonou seu plano de eliminar a Duma, pois sabia que isso significaria mais tumulto, e deu permissão para a eleição de um segundo parlamento."

Fonte: Nicolau e Alexandra, Robert K. Massie

A MORTE DE DOIS AMANTES

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"Por um momento, o corpo do tsar ficou estrebuchando no chão, com os olhos fixos e arregalados, as cavidades toráxicas, expostas pelos buracos das balas, espumando sangue oxigenado, coração acelerado, tudo em uma tentativa de bombear sangue para o seu corpo repleto de traumas.

Logo depois, ficou paralisado no chão. Ele foi o felizardo, já que foi poupado de ver o que aconteceu à mulher que amara incondicionalmente durante mais de 25 anos de sua vida, e claro, sua família.

Ermakov disparou sua Mauser contra a tsarina, que estava apenas a dois metros dele, enquanto ela tentava fazer o sinal da cruz, atingindo-a no lado esquerdo do crânio, o que fez com que pedaços de seu cérebro voassem para todos os lados, ao mesmo tempo em que uma rajada de balas atingiam o torso dela.

Alexandra entrou em colapso no chão, com sangue quente e pegajoso e pedaços de cérebro espalhados em volta, em meio a uma névoa de fumaça. Ao lado dela, estava o tsarevich, que presenciou tudo, incrédulo, junto das irmãs histéricas, que nem mesmo conseguia se levantar para correr, com seu rosto extremamente pálido, todo respingado de sangue do pai.

Quando tudo estava acabado, e depois de pilharem os corpos, desfigurados e horrendos, com feridas medonhas na cabeça e cabelos emplastados com sangue coagulado - impossível de associar com as vistosas crianças das propagandas oficiais do tsarismo, um dos homens disse que conseguiu pôr a mão dentro da saia do cadáver da imperatriz, e apalpar sua genitália, dizendo que agora "poderia morrer em paz".

Para a surpresa de todos, no corpo da imperatriz haviam fileiras de pérolas grandes, suas jóias prediletas, escondidas dentro do cinto em volta de sua cintura, e cordões de ouro na parte superior de seu braço.

Cada criança tinha em volta do pescoço um amuleto que continha a foto de Rasputin, e o texto de uma oração. Era difícil resistir à tentação de se apoderar de um ou outro souvenir, mas o olho de águia de Yurovsky estava atento, fazendo um inventário dos quase 8 quilogramas de jóias colhidas."

Fonte: Os Últimos Dias dos Romanov, Helen Rappaport

LINK ORIGINAL - Romanov: A Última Dinastia da Rússia

O FUTURO NO HORIZONTE

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"Em 1906, três quartos do povo russo extraíam do solo sua sobrevivência. Desde quando Alexandre II aboliu a servidão, a maioria dos camponeses russos vivia em aldeias comunais, fazendo planos comunais para as terras e trabalhavam em parcerias.

O sistema era ridiculamente ineficaz. Dentro de cada comuna, um único camponês podia cultivar até 50 faixas de terra compridas e dispersas, com magras fileiras de trigo ou de centeio em cada faixa. O camponês passava mais tempo percorrendo os sulcos espalhados da plantação do que arando a terra e semeando os grãos.

Pyortr Stolypin, o primeiro-ministro, reverteu esse sistema comunal e introduziu o conceito de propriedade privada. Por decreto do governo, ele declarou que todo camponês que desejasse poderia se desligar da comuna e exigir dela uma parte da terra para cultivar para si mesmo.

E deveria ser um pedaço de terra único, não espalhado em tiras, e essa terra seria herdada pelos filhos daquele camponês. Nicolau aprovou totalmente o programa de Stolypin e, a fim de disponibilizar mais terras, propôs que 4 milhões de acres da Coroa fossem vendidos ao governo, que, por sua vez, as venderia aos camponeses em condições acessíveis.

Embora o czar precisasse do consentimento da família imperial para dar esse passo, e apesar da oposição do grão-duque Vladimir e da imperatriz viúva, ele acabou conseguindo. As terras foram vendidas e Nicolau esperava que os nobres seguissem seu exemplo.

Mas nenhum deles o fez. O impacto da lei de Stolypin foi tanto político quanto econômico. De um só golpe, ele criou uma classe de milhões de pequenos proprietários, cujo futuro estava atrelado a um clima de estabilidade que só podia ser mantido pelo governo imperial.

Aconteceu que os camponeses mais vociferantes e perturbadores da ordem foram os primeiros a reclamar as terras e a se tornarem adeptos da lei e da ordem, diminuindo o movimento revolucionário. Em 1914, nove milhões de famílias de camponeses russos tinham fazendas próprias. No fundo, o sucesso ou fracasso político da Rússia dependia das colheitas.

De 1906 a 1911, o país foi abençoado com verões quentes, invernos amenos e boas colheitas. Em cada acre, os grãos foram os melhores da história da Rússia. Com a fartura de alimentos, o governo subiu os impostos. O orçamento ficou equilibrado e houve até superávit.

Com os grandes empréstimos da França, a rede ferroviária se expandiu rapidamente. Minas de carvão e de ferro bateram recordes de produção. Empresas norte-americanas, como a International Harvester e a Singer Sewing Machine Company, estabeleceram filiais no país.

Na Duma, o governo propôs e passou leis aumentando os salários dos professores primários e estabelecendo o princípio do ensino fundamental gratuito. A censura à imprensa foi amenizada e o governo se tornou mais liberal quanto a tolerância religiosa."

Fonte: Nicolau e Alexandra, Robert K. Massie

LINK ORIGINAL - Romanov: A Última Dinastia da Rússia

COROAÇÃO DO CZAR ALEXANDRE II

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Em 7 de setembro de 1856, após a desastrosa Guerra da Criméia, o imperador Alexandre II da Rússia era coroado na Catedral da Assunção, ao lado de sua esposa, a imperatriz Maria Alexandrovna, originalmente princesa de Hesse-Darmstadt.

Reinariam até o assassinato de Alexandre em 1881, e, além da Rússia se expandir em seu reinado, o tsar foi responsável por várias outras reformas, incluindo a abolição da servidão, a reorganização do sistema judicial e educacional, a modernização da marinha, a abolição do castigo corporal, promoção do autogoverno provincial através dos zemstvos, imposição do serviço militar universal, e o fim de alguns privilégios da nobreza.

LINK ORIGINAL - Romanov: A Última Dinastia da Rússia

terça-feira, 19 de junho de 2018

A RÚSSIA ANTES DO COMUNISMO

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"[...] a Rússia, que ocupava 1/6 da superfície terrestre, gozara de um período notável de crescimento que testemunhara a transformação de São Petersburgo em uma das 6 maiores cidades da Europa. A economia continuava baseada na agricultura, o alicerce de sua enorme riqueza sendo a produção de cereais, mas agora, a era uma das líderes na produção mundial.

Os territórios ocidentais do Império compreendiam uma indústria próspera de ferro e aço, e ainda por serem exploradas, reservas naturais na Ásia Central e na Sibéria que estavam sendo desbravadas por uma vasta rede ferroviária, ligada também aos valiosos campos petrolíferos.

A Rússia no exterior, em outrora vista como asiática e atrasada, era finalmente percebida como "lucrativo terreno para investimento". No exterior, muito se falava também sobre o crescente poderio militar da Rússia Imperial, que seria testado a partir de 1914. O exército mobilizado consistia em 4 milhões de soldados, e sua marinha, projetava-se entre a terceira e a quinta maior do mundo.

Mas não era apenas no poderio militar que estava traçando um perfil internacional para si: o país usufruía de uma explosão artística. Na música, com Stravinsky e Rachmáninov, nas pinturas de Malevitch, Kandínski e Chagall, nos balés de Diáguilev, e uma vibrante poesia dominada por Aleksandr Blok, Andrei Béli e Anna Akhmátova.

Mas a fim de assegurar maior desenvolvimento, o país ainda carecia de um elemento crucial: um sistema político estável, e um governo constitucional adequado que consolidasse as liberdades do povo. Desde 1906, a Duma avançava aos solavancos, de uma crise para a seguinte, de forma cada vez mais debilitante, sendo 3x dissolvida e depois re-estabelecida.

A 4ª Duma, de 1912, fora ainda mais disfuncional, e o estado de espírito político naquele ano de 1913 foi "antagônico", numa contínua reação contra as medidas repressivas pós 1905. Muitos achavam que havia pouco a comemorar. O tricentenário da dinastia trouxera uma montanha de concessões, inclusive anistias e reduções de sentenças para prisioneiros, [...]"

Fonte: As Irmãs Romanov, Helen Rappaport

POST ORIGINAL: Romanov: A Última Dinastia da Rússia

sábado, 16 de junho de 2018

IMUNDÍCIE MONARQUISTA

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"Lênin nunca se apressava quando se tratava de tomar uma decisão, ele era uma máquina de pensar, fria e cínica, com uma mente sofisticada e flexível. Ele adorava colocar seus inimigos uns contra os outros. Enquanto os Romanov fossem úteis a algum propósito político, seriam mantidos vivos.

[...] ele chegou a esperar que fosse possível usá-los para barganhar com os alemães, quem sabe até reduzindo a dívida [...] contraída no Tratado de Brest-Litovsk. Mas com o soviete dos Urais e outros linhas duras continuando a bombardeá-lo com telegramas que exigiam a execução do tsar, ele sabia que o tempo estava contra ele.

"Aniquilação": uma palavra tão desprovida de emoção e sem sentido. Primeiro, foi usada para se referir à aniquilação das instituições tsaristas, da propriedade privada, da ortodoxia e dos demais costumes e hábitos antigos.

Depois se tornou um eufemismo empregado quando se referiam a reprimir seus oponentes. Agora, seu significado estava ampliado para cobrir uma "limpeza social" (clérigos, aristocratas, burocratas e etc, tinham de ser extirpados).

[Mas] Lênin queria ter certeza que seu nome não seria manchado pelo assassinato deles. O que é evidente é que o enigmático Sverdlov, o homem que realmente comandava a máquina do partido, foi quem moveu-se para selar o destino da família em conversas com os bolcheviques dos Urais.

Mas isso não exclui o fato de que para Lênin, a dinastia Romanov "era uma imundície monarquista", e que para a revolução e a "limpeza social", [...], "centenas de cabeças Romanov tinham de ser cortadas."

No fim, foi o argumento de que os tchecos estavam avançando que fez este ato de oportunismo político ser sancionado.

Não era uma questão de impedir que os Romanov caíssem nas mãos inimigas, mas uma resposta à pressão dos já decadentes alemães: se o tsar caísse nas mãos dos contra-revolucionários, e se tornasse motivo de manifestações anti-alemãs na Rússia, o tratado de paz, e com eles os sustentáculos do governo soviético, estariam arruinados.

E ainda havia uma complicação. Eles decidiram matar o tsar, mas a política estrangeira do país afirmava ser essencial manter a aniquilação do resto da família como segredo até então. Era uma questão de conveniência matá-los.

O quê os uralianos fariam depois com as mulheres e o menino naquela situação onde todos queriam colocar as mãos neles? E, seria muito ruim em termos políticos que o governo fosse visto como responsável pelas mortes de mulheres e crianças inocentes."

POST ORIGINAL: Romanov: A Última Dinastia da Rússia