quarta-feira, 8 de março de 2017

QUAL O PROGRAMA MONÁRQUICO?

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Insistentemente interroga-se de vários lados, até de onde menos seria de prever, sobre o programa político, econômico e social da Monarquia. Pede-se a modos que a redação de um estatuto constitucional a adotar numa futura Restauração...

Isto revela um grande equívoco que é necessário desfazer.

O que caracteriza a forma monárquica é confiar a Chefia do Estado a uma Dinastia, na pessoa de um Rei.

A essência da Monarquia é a Realeza. É esta a sua base imutável, o seu princípio indiscutível.

Os regimes, em seus vários aspectos, têm sido e são mutáveis e variados com os tempos. Vão evolucionando, vão-se adaptando às exigências de cada época. Nem poderia ser de outra maneira.

O regime é, portanto, discutível, o que equivale a dizer que não há um regime monárquico único e pré-determinado. Compete à Nação, em qualquer altura, escolhê-lo e conservá-lo ou modificá-lo, conforme as circunstâncias e o interesse comum o ditarem.

O Rei ouve a Nação e, como seu mais fiel intérprete e primeiro servidor, guarda e defende a legitimidade constitucional.

É esta uma das liberdades que a Realeza nos assegura. Só os ditadores ou os déspotas impõem um regime segundo a sua vontade.

O Poder Real, porque é independente e superior às discussões dos regimes, porque é estável e contínuo, permite como nenhum outro as maiores liberdades, as mais arrojadas experiências administrativas, sociais ou econômicas, sem prejuízo da ordem e da autoridade.

Exposta nestes termos a verdade da doutrina monárquica, compreende-se que o Rei seria a última pessoa a pronunciar-se por um regime e que, nem os responsáveis pela ideia monárquica, nem ninguém pode sobrepor-se ao que é um direito inalienável da Nação.

Cada um de nós, como cidadão português, pode e deve, naturalmente, formular as suas opiniões e pugnar por elas; o que não é lícito é identificar a Realeza com o regime da sua preferência. O Rei é de todos, repetimos.

Numa Restauração do Poder Real só um caminho haveria a seguir: convocar Cortes Gerais, amplamente e autenticamente representativas, e adotar-se a Constituição que nestas fosse escolhida.

Não temos, portanto, que antecipadamente falar de um regime como programa de uma futura Monarquia e ainda menos como condição do Rei. Temos, sim, de reclamar o Poder Real como a mais segura fiança de um regime nacional."

Décimo segundo capítulo do livro "Razões Reais" de Mário Saraiva.

Na imagem: SS.AA.RR. o príncipe D. Antonio e a princesa D. Christine no casamento do grão-duque hereditário de Luxemburgo com a condessa Stephanie de Lannoy.

terça-feira, 7 de março de 2017

A árvore genealógica dos partidos políticos do Brasil


Quem nunca teve a curiosidade de desenhar a árvore genealógica de sua família? Ainda mais sendo oriundo de uma família de imigrantes (alemã, italiana, etc). Aquela ‘pontinha’ de curiosidade, que ajuda a pensar “de onde venho e para onde vou”?

Pois nestes últimos dias, resolvi me debruçar sobre a história dos partidos políticos brasileiros e fazer o mesmo. Como não sou historiador, nem cientista político, o desenho pode apresentar falhas. No entanto, ajudou-me a organizar as ideias e reconhecer melhor em qual terreno e contexto se inserem alguns partidos atuais. Na dúvida, veja o quadro acima.

– Brasil Império e República Velha

Para começo de conversa, durante o Brasil Império (1822-1889), dois partidos “de direita”, que defendiam a manutenção da escravatura, bipolarizaram o poder: Partido Liberal e Partido Conservador. O cenário só começou a mudar com a aparição dos Partidos Republicanos.

Não existia uma união nacional nesta época, com os quadros sendo formados dentro dos Estados (o Partido Republicano Paulista, o Mineiro, e o Riograndense, de Júlio de Castilhos, por exemplo). Estes dominaram o palco principalmente a partir da Proclamação da República e estabelecendo a política do ‘café com leite‘, com paulistas e mineiros se revezando no poder.

É preciso compreender que neste período não havia o sufrágio universal. Ou seja, mulheres e pobres não iam às urnas. Portanto, as referências políticas eram pessoas da elite social.

– Era Vargas

Oriundo do PRR (Partido Republicano Riograndense), o gaúcho Getúlio Vargas chegou à presidência em 1930 graças a um golpe de Estado que interrompeu o revezamento de paulistas e mineiros. Quatro anos depois, promulgou uma nova Constituição, impondo entre outras coisas o voto secreto, o voto às mulheres e direitos trabalhistas.

Com a implantação do Estado Novo (nada mais do que uma ditadura populista), viu as oposições se radicalizarem entre extrema-direita e extrema-esquerda: Ação Integralista Brasileira (AIB), que defendia um governo fascista; e Aliança Nacional Libertadora (ANL), formada por integrantes do PCB (Partido Comunista Brasileiro).

Aliás, este último, conhecido como ‘Partidão’, foi o primeiro viés de esquerda na política nacional, fundado ainda em 1922, acabou sendo tornado ilegal por muitos dos governos que assumiram o país. Apesar de fortes revoluções organizadas por essas duas frentes, Vargas manteve-se na presidência até 1945.

Voltaria eleito cinco anos depois, mas antes ainda foi o avalizador de dois partidos que seriam fundados: PSD (Partido Social Democrático) e PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) – pelo qual se filiou. No espectro oposto, surgiria a UDN (União Democrática Nacional), uma herdeira dos Partidos Conservador e Liberal. Seria a principal oposição ao governo getulista até seu suicídio em 1954.

– Ditadura Militar

Com o golpe militar de 1964, apoiado inicialmente pela UDN para derrubar o governo trabalhista de João Goulart (‘filho político’ de Getúlio), todos os partidos – da esquerda à direita – entraram na ilegalidade. Do PCdoB (Partido Comunista do Brasil, herdeiro do PCB), passando pelo PSB (Partido Socialista Brasileiro, encontro de ideologias entre PCB e PTB), PDC (Partido Democrata Cristão) e alcançando até a própria UDN.

Permitia-se apenas a adesão a duas vertentes: MDB (Movimento Democrático Brasileiro) e ARENA (Aliança Renovadora Nacional). Era como se, de uma hora para outra, a política nacional voltasse ao período do Brasil Império, onde vigoravam apenas os liberais e conservadores.

Os quadros da centro-esquerda foram forçados ao exílio (como o petebista Leonel Brizola), enquanto os da extrema-esquerda assumiram a ilegalidade para criar grupos armados – ALN (Aliança Libertadora Nacional), MR8 (Movimento Revolucionário 8 de outubro), VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), entre outros.

– Reabertura política

Diante das manifestações populares pelo fim dos governos militares, foram surgindo novos partidos. Com o DNA getulista, Brizola fundou o Partido Democrático Trabalhista (PDT). Este ainda recebeu alguns componentes dos grupos revolucionários, enquanto a maioria acabou migrando para o recém fundado Partido dos Trabalhadores (PT), encontrando-se com líderes de movimentos sindicais.

Com o desprestígio da ARENA, surgiu o PDS (Partido Democrático Social), que passaria a abrigar aqueles políticos que governaram sob o guarda-chuva militar, como José Sarney. O MDB, por sua vez, foi quem surfou a onda da abertura política, sendo a cara da recente democracia brasileira.

Velhos partidos, como PCdoB, PSB e PTB também foram reativados, mas já desvirtuados das ideologias que os havia fundado.

– Coligações e fisiologismo

A partir da década de 90, os partidos foram se multiplicando. Da direita, saíram do PDS o PFL (Partido da Frente Liberal, hoje DEM), PPB (Partido Progressista Brasileiro, hoje apenas PP) e PRN (Partido da Reconstrução Nacional, hoje PTC) – que elegeria Fernando Collor nas primeiras eleições diretas.

Do gigantesco PMDB, surgiria principalmente o PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira). Do PT, acabariam migrando vertentes radicais de esquerda, como PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado), PCO (Partido da Causa Operária) e mais recentemente PSOL (Partido Socialismo e Liberdade). O impeachment de Collor em 1992, no entanto, influenciaria ainda mais o fisiologismo na vida democrática brasileira.

A troca constante de partidos – como do então vice-presidente Itamar Franco, que chegaria ao seu 5º partido ao assumir a presidência (PTB, MDB, PL, PRN e PMDB) – denunciava a falta de fidelidade a uma raiz ideológica. Além disso, o sistema presidencialista de coalizão insuflou as coligações antes inimagináveis. O ‘tucano’ Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, ex-MDB, coligou com o PFL (dissidência do PDS e ARENA) para vencer as eleições de 1994 e 1998.

Já o petista Lula uniu-se com o PL para fazer o mesmo em 2002 e 2006. Quando que os liberais do Brasil Império imaginariam que seus herdeiros políticos um dia uniriam forças com trabalhadores de movimentos sindicais?

Da fusão dessa coligação improvável, por exemplo, saiu o atual SD (Solidariedade), que tem como presidente o deputado Paulinho da Força Sindical – um ex-petista, que se tornou uma das principais bases de apoio ao recente impeachment de Dilma Rousseff.

Outra obra do fisiologismo é o recém criado Rede Sustentabilidade, capaz de abrigar a fundadora Marina Silva, ex-PT e PV (Partido Verde); Randolfe Rodrigues, ex-PSOL; Miro Teixeira, ex-PP, PDT e PROS (Partido Republicano da Ordem Social); e João Derly, ex-PCdoB. Isso sem falar no PSC (Partido Social Cristão), herdeiro do antigo PDC extinto pela ditadura militar, mas que já lançou a pré-candidatura de Jair Bolsonaro, um entusiasta do regime militar.

Mas talvez o ‘filho mais bastardo’ da política brasileira seja o PR (Partido da República), nascido da fusão entre PL e PRONA (Partido da Reedificação da Ordem Nacional) – pensado e criado pelo ultranacionalista Enéas Carneiro, primo distante do integralista Plínio Salgado. Mesmo assim, não exitou em coligar com o PT nas eleições de Dilma.

Sendo assim, à esta altura, onde ninguém mais sabe quem é o inimigo ou amigo na trincheira, urge uma reforma na política brasileira. Ou sigam degustando essa sopa de letrinhas promíscuas e indigestas.


O REI - ÁRBITRO NACIONAL

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O Rei é de todos e é para todos. É como se fosse nós todos, por isso que é a Nação em pessoa.

Um cidadão eleito Presidente por uma qualquer força política, não pode deixar de considerar-se mandatário dessa força e agente dessa política.

Mas o Rei vem da Dinastia; não é delegado de ninguém, senão da nação histórica. Identifica-se com a Pátria.

O Poder Real é o único poder que foge na sua origem às dependências ou influências partidárias. Por tal motivo independente e nacional, o poder do Rei reúne condições únicas para assumir a função de suprema e justa arbitragem. Apenas por intermédio da instituição da Realeza pode obter-se um insofismável poder-árbitro.

Socorramo-nos de um exemplo prático que, por mais conhecido, pode ser o inglês.

Na Inglaterra, em regime rotativista, como se sabe, o governo tem passado várias vezes de mão entre conservadores e trabalhistas, os dois grandes partidos rivais. A Coroa, permanecendo inglesa sem rótulo, com poder livre e superior às viragens políticas, significa a defesa dos direitos das minorias, em face dos possíveis excessos da maioria governante.

Se os governos se dizem "de Sua Majestade", também as oposições se dominam "de Sua Majestade" e bem assim a população não filiada em partidos.

Qualquer associação política, ou simples súdito dispõem de uma instância acima do Governo, isenta de compromissos ou de vínculos políticos com este, para quem apelar de eventuais injustiças ou desmandos.

O Rei serve de árbitro nacional e garante a possibilidade e a normalidade das mutações políticas conforme a livre opinião pública.
Mas se a Inglaterra tivesse uma forma republicana, teria naturalmente um Presidente trabalhista ou conservador, da mesma cor do Governo, conforme a oscilação política. E como poderia esse hipotético presidente — perguntamos nós — servir de Juiz imparcial entre partidos, se ele era parte nas questões, pela sua filiação partidária?
Como conseguir que fosse em detrimento do Governo do seu partido e a favor de um partido da oposição?

É bem claro que habitualmente Governo e Presidente se confundem e identificam politicamente e que, por conseguinte, de pouco valerá apelar para a Presidência contra o Governo.

E se considerarmos o caso das Repúblicas Presidencialistas (tão numerosas e frequentes) onde o Chefe de Estado acumula funções de Chefe do Executivo?

É evidente que a hipótese de interpor (mas junto de quem?) algum recurso de natureza política contra um Governo deste gênero, nem sequer pode ser concebida.

Que a Providência eleitoral, em motivo das circunstâncias já citadas, é a responsável pela minoração ou inutilização do Poder nas funções de arbitragem nacional, é notório. E aqui fica-se neste dilema: ou se tem, por privilégio do Poder Real, uma instância de recurso e de proteção contra as possíveis prepotências dos Governos, ou passa-se simplesmente sem essa defesa, que não no-la pode dar com eficácia o Poder eleito.

A questão aqui não se põe entre melhor e pior; põe-se entre ter e não ter."

Décimo primeiro capítulo do livro "Razões Reais" de Mário Saraiva.

Na imagem: S.M.C. o rei de Espanha recebe o Senhor Mariano Rajoy para convidá-lo a formar um novo governo após meses de falta de consenso entre os partidos eleitos para o parlamento espanhol. O rei foi fundamental para garantir a unidade e a estabilidade do estado espanhol pondo fim a meses de crise.

GOVERNO REAL


"O Integralismo adotou a fórmula conhecida de Gama e Castro: "O Rei governa, mas não administra". Dado que a palavra Governo se aplica hoje correntemente ao Conselho de Ministros e às suas atribuições de administração pública, temos de distinguir deste sentido de governo, o governo real, e de retificar, portanto, a expressão.

Contudo, melhor seria, para evitar confusões, e por consagrado que está o termo, que se continuasse a chamar governo à administração e ao seu órgão responsável e que se dissesse que o Rei reina, pressupondo que reinar pode ter um conteúdo diferente do que se lhe deu no século XIX com o demo-liberalismo.

Em boa doutrina, aliás de há muito aceite pelos monárquicos portugueses, o Rei não deve imiscuir-se nem responsabilizar-se na administração. Não deve, nem seria conveniente que o fizesse, porquanto os atos administrativos, andando por natureza permanentemente sujeitos à crítica e à discussão da opinião pública, expõem os seus responsáveis a um desgaste crescente e fatal.

Seria o maior dos absurdos descer o Rei ao lugar de um Primeiro Ministro para se queimar e inutilizar a curto prazo nessas funções subalternas.

Que papel desempenha então o Rei?

Para que serve no Estado moderno?

A mesma pergunta fê-la, com o desplante e a grosseria de um novo-rico, o Presidente Teodoro Roosevelt ao velho Imperador Francisco José da Áustria-Hungria. Este respondeu à letra ao governante americano: "a minha missão como rei é defender o meu Povo dos seus governos".

Bela e inteligente resposta que dá uma perspectiva nova à Realeza ante as tentaculares e cada vez mais absorventes intromissões do Estado na vida dos Povos!

Porém, chegou um tempo em que deve retificar-se: a missão dos Reis é defenderem a Nação do Estado.

"Procuradores dos descaminhos do Reino", intitulavam-se os nossos monarcas. Eis aqui uma síntese feliz do encargo real.

O governo do Rei traduz-se em impedir o desgoverno da Grei.

Mostraria não apreender o sentido profundo e transcendente da Realeza quem visse nela uma chefia de Estado apenas diferente da Presidência por ser transmitida hereditariamente.

O Rei, em verdade, não pode considerar-se essencialmente um Chefe de Estado; é-o apenas por inerência das suas funções, as quais têm um caráter eminentemente nacional, enquanto que a chefia do Estado é de índole puramente política.

Do antecedente já se vê que seria um erro crasso imaginar qualquer semelhança ou aproximação entre uma Monarquia e uma República Presidencialista, tanto como confundir o significado de Governo Real com as atribuições executivas de um Primeiro Ministro ou as de um Presidente-Chefe de Governo.

O Rei é "a Pátria com figura humana", entendeu-o e disse-o admiravelmente o poeta. É desta faculdade excelsa de personificar a Nação que na maior parte promanam as magníficas virtualidades da instituição real. Tudo quanto possa restringir essa faculdade limita e diminui os serviços da Realeza.

Rei - personificação da Pátria.

Rei - procurador dos descaminhos do Reino.

Rei - defensor da Nação perante o Estado.

Eis-nos diante de três posições basilares que necessariamente marcam, orientam e definem a jurisdição ou magistratura real."

Décimo terceiro capítulo do livro 'Razões Reais" de Mário Saraiva.


Assista Dom Luiz Phillipe explicando a função de um Imperador, um Chefe de Estado na TV Imperial
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"Passamos por uma grave crise política, econômica, mas, principalmente, uma crise de identidade. Muito do que acontece hoje em dia se dá pela desconstrução ou distorção da nossa própria história. Portanto, minha mensagem é a seguinte: tenham orgulho da nossa Pátria, do verde e amarelo que compõe a nossa bandeira. Um país onde a população não respeita sua própria pátria não tem como ser uma potência. Amem e respeitem o Brasil."

- S.A.R. o Príncipe Dom Pedro Alberto de Orleans e Bragança, sobrinho de S.A.I.R. o Príncipe Dom Luiz de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial do Brasil, em entrevista ao colunista Ailton Pitombo.

Conheça o Movimento liderado por Dom Pedro Alberto e os Príncipes da nova geração da Família Imperial, Dom Rafael, Dom Gabriel e Dom Luiz Phillipe

MOVIMENTO BRASIL REAL
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sábado, 4 de março de 2017

HUEDRO II


Dom Pedro II podia ser um monarca muito educado, incapaz de grosserias, mas sabia ser irreverente, como bom brasileiro que era.

Na Inglaterra, na embaixada do Brasil em Londres, por ocasião de uma visita oficial, Dom Pedro II assistia ao concerto de um famoso pianista inglês. Talentoso mas também pessoa de péssimos hábitos higiênicos, o tal pianista exalava um cheiro, digamos, peculiar, que ao Imperador muito incomodava. Depois do concerto, todos maravilhados com a performance, o Príncipe de Gales, futuro rei Eduardo VII, manifestou ao ministro plenipotenciário do Brasil, Barão de Penedo, o desejo de que o pianista fosse condecorado pelo Imperador com a Ordem da Rosa.

O Príncipe de Gales não ficou sabendo, mas ao tomar ciência da proposta, o Imperador comentou ironicamente ao Barão:

- ‘‘Concordo, desde que antes o governo inglês lhe conceda a Ordem do Banho!’

Nos Estados Unidos, também por ocasião de uma visita oficial, o professor norte-americano David Todd mostrava a D. Pedro II um novo instrumento do observatório, no qual havia um espelho rotativo que dava não sei quantas voltas por minuto.

D. Pedro comentou:

— ‘‘Quase tantas como numa república sul-americana...’’

- Do livro "Revivendo o Brasil Império", de Leopoldo B. Xavier. São Paulo: Artpress, 1991. p. 112 e 70.

A HEREDITARIEDADE MONÁRQUICA


Os republicanos não compreendem as razões da hereditariedade monárquica, o que não admira, pois está nessa incompreensão o motivo, pode dizer-se único, do seu republicanismo.

O fato curioso é que eles a suponham uma velharia, um processo obsoleto, quando ela, afinal, proveio de uma inovação e correção ao antigo costume eletivo.

Expliquemo-nos. Nas sociedades primitivas, ao despontar o sentimento nacional, os chefes naturais, chefes de famílias ou tribos, escolheram ou elegeram dentre eles o chefe comum, ante a premente necessidade de uma chefia geral unificante. A eleição fez-se vitalícia à imagem das chefias naturais subalternas. É de notar como nesta fase se marca a transição indefinida entre as duas formas: república vitalícia, monarquia eletiva.

As primeiras monarquias foram, pois, eletivas, tais como as monarquias visigóticas e ainda as dos reinos das Astúrias e de Navarra. Mas desde cedo se verificou nelas o seu ponto fraco e perigoso: o da substituição do rei, por falecimento ou incapacidade deste.

Esse ponto assinalava sempre um período grave e agitado, de divisões e de lutas entre os candidatos à sucessão secundados pelos grupos dos seus adeptos.

O enfraquecimento e a perigosa ameaça de desagregação em face das rivalidades, agravando-se pelas cobiças dos povos vizinhos, punha em causa a sobrevivência dessas pátrias incipientes. Temerosos de alguns exemplos sucedidos, acordaram os responsáveis na conveniência de escolher com antecedência o futuro sucessor, ainda em vida do monarca. Aproveitava-se a autoridade e o conselho deste, ora como elemento valioso de moderação, de disciplina e de respeito, ora como autorizada contribuição ao acerto na escolha do futuro soberano.

Mas, apesar disso, o mal da escolha continuava. A competição apresentava-se como legítima e inevitável, porque os vários candidatos propunham-se com iguais direitos e com indicações semelhantes de elegibilidade.

Na emulação estabelecida não era possível impedir os dissídios, as cisões, os ódios, as retaliações, germens perigosos de desagregação nacional.

Para obstar aos estragos intrínsecos da eleição, apenas uma hipótese: a de se encontrar um candidato que reunisse condições de exceção, condições únicas sobre os demais, que o colocassem desde logo fora e acima da competição.

Nessa situação de exceção ou de privilégio encontrava-se, por via de regra, apenas o filho do monarca reinante.

O fato da sua ascendência, que lhe emprestava prestígio, da sua preparação, familiarizado que estava com os problemas da governação, das relações criadas, da predileção paterna, enfim o consenso geral, davam-lhe compreensível preferência.

E foi assim, espontaneamente, naturalmente, evolucionando, melhorando, que se entrou no governo hereditário.

Eliminadas que foram, por via da hereditariedade, as causas funestas de desunião, encontravam-se cumulativamente outras vantagens: a da continuidade e a da educação apropriada dos chefes governantes.

Se o governo vitalício fora já um imperativo de conveniência nacional, a transmissão hereditária acrescentou-se-lhe como utilíssimo aperfeiçoamento. Ela exprime o resultado final da evolução empírica e progressiva do princípio eletivo.

Porque a Realeza foi uma emenda e um avanço — um inteligente avanço! — à primitiva forma eleitoral, temos ou não temos inteira razão em dizer que o preconceito republicano da escolha tem o significado de um retrocesso?

Já estamos a ouvir a contradita: Como compreender então a preferência do mundo moderno pelas formas republicanas? Como interpretar a queda das monarquias nos últimos tempos e a consequente passagem às repúblicas, não é?

O fenômeno tem realmente servido de argumento, mas nada depõe, na verdade, contra as razões dos princípios monárquicos e os resultados obtidos com as mudanças, esses... ainda menos.

Se a evolução até à hereditariedade se processou, como vimos, empiricamente, isto é, por correções e ajustamentos em face das realidades vividas, o regresso brusco e generalizado às formas eletivas, pelo contrário, não teve qualquer justificação prática. Aconteceu apenas na lógica da ideologia individualista que caracterizou o Século XIX.

Foram teorias pensadas em abstrato, alheias às realidades humanas, como as da igualdade absoluta, da liberdade ilimitada, da preconcebida onisciência do eleitorado soberano, invenções de certos filósofos visionários, que levaram a romper com as regras sabiamente construídas e sobejamente comprovadas ao longo de muitos séculos de vida social.

Mas proclamava-se a igualdade e a invocação era aliciante porque, fantasiando o que se deseja, há de sempre medir-se o mito da igualdade por cima. Os indivíduos de baixo e de médio nível (a maioria) logo idealizaram que a prática da igualdade consistiria em poderem subir e igualar-se aos socialmente superiores (a minoria). Não esteve nos seus cálculos a impossibilidade, por desigualdade natural de faculdades, de todos ascenderem ao mesmo plano, como também não esteve o da nivelação por baixo, que algumas sociedades penosamente experimentaram. Todavia a ilusão era agradável à maioria e, numa política onde prevalecia o número (a maioria do voto), a ilusão triunfou e fez-se sistema.

O conceito teórico da igualdade, tendo transformado cada cidadão num presidente em potência, não podia admitir, como é óbvio, a Realeza hereditária. E foi assim, por simples coerência com uma ficção, que não por qualquer motivo em desabono das instituições dinásticas, que muitos povos baniram as monarquias em que nasceram e se engrandeceram.

O que interessa averiguar agora, como contraprova, é se esses povos e essas nações lucraram ou perderam com a mudança; se progrediram ou se não retrogradaram. Aí se encontrarão as razões de preferência pelos regimes e não na sua contagem numérica.

A saúde não deixaria de ser um bem ainda que deixasse de existir, pelo motivo de todos adoecerem..."

Sétimo capítulo do livro "Razões Reais" de Mário Saraiva.

Na imagem: Três gerações de uma dinastia: S.M. o rei dos Países Baixos, S.A.R. a princesa Beatrix dos Países Baixos e S.A.R. a princesa de Orange.