sexta-feira, 27 de outubro de 2017

A IMPERATRIZ E AS COXINHAS

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O Imperador Dom Pedro II e a Imperatriz Dona Teresa Cristina eram pessoas simples, avessas a qualquer tipo de luxo, e as refeições palacianas eram revestidas de frugalidade.

O prato preferido do Imperador, sempre presente em todas as refeições, eram os caldos, especialmente uma suculenta canja de galinha. Parece que esta preferência era algum tipo de herança genética, já que sua bisavó, a Rainha Dona Maria I de Portugal, era igualmente amante da canja de galinha, da mesma forma como seu avô, o Rei Dom João VI, deliciava-se com as coxas de frango assado.

Ainda a esse respeito, conta-se que o filho mais velho da Princesa Imperial Dona Isabel, o então Príncipe do Grão-Pará, Dom Pedro de Alcântara, possuidor de um temperamento forte, era igualmente apreciador da coxa do frango, só que frita. Certa feita, Sua Alteza se atrasou para o lanche, ocasião em que foi servido frango frito em pedaços.

Como o Príncipe do Grão-Pará não se encontrava presente, seus irmãos mais novos, os Príncipes Dom Luiz e Dom Antonio, serviram-se cada um de uma das coxas. Quando o irmão mais velho chegou e se deu conta de que as coxas que ambicionava não se encontravam mais ali, pôs-se a chorar – crianças são sempre crianças! – e foi se queixar à avó, dizendo que os irmãos não haviam respeitado seu “direito de primogenitura”.

A Imperatriz, como sempre, sorridente, a tudo ouviu e tranquilizou o neto, dizendo: “Vá brincar mais um pouco que a vovó vai dar um jeito”. Avós também são sempre avós! Sua Majestade deu mesmo um jeito: desfiou um pouco do peito do frango, fez uma massa de farinha de trigo, misturou-a com o frango desfiado, envolveu-a em farinha de rosca, amassou tudo nas mãos em forma de coxas, colocou um osso fino na parte da ponta e levou à frigideira para fritar.

Em poucos minutos, nascia a “coxinha de frango”, pronta para ser saboreada pelo pequeno Príncipe do Grão-Pará. Foi um grande sucesso, e Sua Alteza ainda pôde debochar dos irmãos, dizendo que “a coxa de frango da vovó” era muito mais gostosa. A partir de então, os três Imperiais infantes, na hora do lanche, só queriam comer “a coxa de frango feita pela vovó para o mano Pedro”.

A origem Imperial da coxinha, tão popular nas lanchonetes de hoje, foi narrada de boca em boca desde o fim do Império, até os primeiros anos do século XX, caindo no esquecimento com rolar dos tempos. Mas o fato verídico ficou gravado.

- Baseado em trecho do livro “Sua Majestade Imperial D. Thereza Christina Maria de Bourbon e Bragança – ‘A Mãe dos Brasileiros’”, do Prof. Rogerio da Silva Tjäder.

Retrato: S.M.I. a Imperatriz Dona Teresa Cristina do Brasil (1822-1889).

O MOINHO DE SANS-SOUCI

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Um episódio muito curioso ocorreu com o Rei Frederico II da Prússia, cognominado o Grande, que reinou de 1740 a 1786, sendo um dos Soberanos mais absolutistas que a Histórica conheceu, protótipo do déspota coroado, mas que considerava normal respeitar a propriedade privada de um pobre moleiro.

Aconteceu que o Rei mandou construir, inteiramente segundo seu gosto, um Palácio, ao qual deu o nome francês de Sans-Souci. Concluída a construção do Palácio, quando se tratou de proceder o ajardinamento das áreas que o cercavam, aconteceu que um moleiro, velho e teimoso, não quis vender ao Rei o seu moinho... que ficava bem no meio da área que, nos planos régios, seria ocupada pelo parque.

O Soberano ofereceu pagar a quantia que o moleiro estipulasse, por mais elevada que fosse. Mas este, obstinado, recusou. Qualquer governante republicano atual não hesitaria: imediatamente fulminaria um decreto de desapropriação por interesse público. Tal solução não foi adotada pelo déspota coroado.

O Rei simplesmente se resignou a ter, bem no meio do seu parque, a companhia incômoda do moinho, que fazia barulho e sujava a área com a farinha que o vento levava. E o célebre moinho acabou por se incorporar definitivamente ao parque régio.

Conta-se que, mais de cem anos depois, os descendentes do moleiro, necessitando de dinheiro, procuraram o remoto sucessor do Rei Frederico II, para lhe perguntar se não desejaria adquirir o moinho. O Rei Frederico Guilherme IV se recusou fazer a compra, mas ordenou que fosse entregue aos moleiros, como presente, a quantia que eles pretendiam receber pela venda.

Isso porque a permanência daquele moinho, como propriedade privada encastoada dentro do Palácio de Sans-Souci, era um símbolo das liberdades prussianas, era um monumento nacional, que permanece de pé até os dias de hoje.

- Baseado em trecho do livro “Parlamentarismo, sim! Mas à brasileira, com Monarca e Poder Moderador eficaz e paternal”, do Prof. Armando Alexandre dos Santos.

Foto: o Moinho do Palácio de Sans-Souci.

O INTERESSE DO BRASILEIRO PELA MONARQUIA

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Quando o Príncipe de Gales, herdeiro da Coroa Britânica, casou-se com Lady Diana Spencer, em julho de 1981, 750 milhões de pessoas, nos cinco continentes, acompanharam atentamente a cerimônia, pela televisão. Quase um quinto da população da terra!

No Brasil, a cerimônia foi transmitida ao vivo pela televisão, às 7h da manhã. Tantas foram as pessoas que, desde os dias anteriores, solicitaram ao serviço de despertar da Companhia Telefônica de São Paulo que as acordasse na hora da transmissão, que esse serviço – pela primeira e única vez desde que foi instituído – não conseguiu atender a todos pontualmente.

Já às 5h30 da manhã, a TELESP começou a telefonar para muitos lares, desculpando-se por estar telefonando tão cedo. Mas, se não começasse a chamar muito cedo, não conseguiria acordar a todos...

Trinta anos mais tarde, em abril de 2011, quando o primogênito do casal, o Príncipe William, Duque de Cambridge, desposou a jovem Catherine Middleton, as projeções indicaram que um total de dois bilhões de pessoas – um terço da população mundial! – acompanhou a cerimônia, ao vivo, pela televisão. No Brasil, as pessoas acordaram antes do sol nascer para assistir ao início da cobertura, com o Ibope registrando um aumento de 48% na audiência da TV aberta entre as 6 e as 9h da manhã naquele dia.

Esses fatos são bem significativos para demonstrar o quanto, até hoje, tudo o que diz respeito à Monarquia desperta interesse em larguíssimas faixas da opinião pública. Tal não ocorre apenas nos países que conservam essa forma de governo; mas também em países que há muito a aboliram – é bem esse o caso do Brasil –, e até mesmo em países que sempre foram Repúblicas.

- Baseado em trecho do livro “Parlamentarismo, sim! Mas à brasileira, com Monarca e Poder Moderador eficaz e paternal”, do Prof. Armando Alexandre dos Santos.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O RAMO NÃO-DINÁSTICO DA FAMÍLIA IMPERIAL BRASILEIRA

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O filho primogênito da Princesa Dona Isabel e do Conde d’Eu, o Príncipe Dom Pedro de Alcântara, Príncipe Imperial do Brasil enquanto herdeiro dinástico de sua mãe, era grande amante de caçadas, de esportes e de viagens. Propendia mais para a vida em família, com as amenidades próprias do lar doméstico, e para a vida social em escala privada, não se sentindo particularmente afeito aos incertos vaivéns da política e aos embates da vida pública.

O Príncipe Dom Pedro de Alcântara se apaixonou, por volta de 1900, por uma jovem dama checa, a Baronesa Elisabeth Doberzenky von Dobrzenicz, filha do Barão João Wenzel Doberzensky von Dobrzenicz e da Condessa Elisabeth Kottulinsky von Kottulin. A Baronesa Elisabeth pertencia a uma Família da pequena nobreza, há muito estabelecida na Boêmia, mas não era Princesa de sangue real.

Portanto, a Princesa Dona Isabel, enquanto Chefe da Casa Imperial e Imperatriz “de jure” do Brasil, não viu com bons olhos o pretendido matrimônio de seu primogênito e herdeiro. Sua posição não se devia, como poderia parecer, a um antipático “orgulho de casta”. Sem dúvida, pesavam no espírito da Redentora razões de prestígio para a Família Imperial Brasileira – e, por extensão, para o próprio Brasil – relativamente ao nível das esposas de seus filhos. Mas, muito acima disso, sua posição se explicava, sobretudo, pela preocupação que Sua Alteza tinha de que seus filhos se casassem em Famílias que cultivassem o mesmo espírito de sacrifício dos Príncipes em favor de suas pátrias.

Assim sendo, a Chefe da Casa Imperial e o Conde d’Eu pediram que o Príncipe Imperial, durante alguns anos de reflexão, pusesse à prova seu amor pela Baronesa Elisabeth, retardando o casamento. Após a prolongada espera, afinal, o Príncipe Imperial, “tendo maduramente refletido”, “por muito livre e espontânea vontade”, renunciou “não só por mim, como por todos e cada um dos meus descendentes”, a todo e qualquer direito à Coroa e Trono do Brasil.

O documento de renúncia – que não reproduzimos aqui por ser muito conhecido e divulgado – foi assinado em Cannes, no dia 30 de outubro de 1908, diante da Chefe da Casa Imperial do Brasil, que, nos termos dos Artigos 11 e 98 da Constituição Imperial de 1824, representava a Nação Brasileira, e foi aceito por Sua Alteza. A Redentora, oficializando-o, comunicou-o formalmente ao Diretório Monárquico do Brasil, sediado no Rio de Janeiro e composto por antigos Ministros e Conselheiros de Estado do Império.

Com seu ato de renúncia, que constituiu ato jurídico perfeito e acabado, cuja inteira validade ninguém pode por em dúvida, o Príncipe Dom Pedro de Alcântara perdeu a condição de Príncipe Imperial do Brasil, que passou ao seu irmão, o Príncipe Dom Luiz (este, por respeito ao irmão mais velho, também havia prolongado seu próprio noivado, com a Princesa Maria Pia de Bourbon-Sicílias, com quem veio a se casar pouco depois da renúncia de seu irmão, no dia 4 de novembro de 1908).

Removidos, pois, os obstáculos para o matrimônio, o Príncipe Dom Pedro de Alcântara se casou, no dia 14 de novembro de 1908, em Versalhes, com a Condessa Elisabeth Doberzenky von Dobrzenicz (o Imperador Francisco José I da Áustria, acatando um pedido de sua prima, a Redentora, e por amizade e simpatia pelo Príncipe Dom Pedro de Alcântara, elevou a Família de sua noiva à condição de Condes, antes do casamento).

O casal teve cinco filhos: a Princesa Dona Isabel (1911-2003), que se casou com o Príncipe Henrique de Orleans, Conde de Paris e, desde 1940, Chefe da Casa Real da França; o Príncipe Dom Pedro Gastão (1913-2007), que desposou a Princesa Esperança de Bourbon; a Princesa Dona Maria Francisca (1914-1968), casada com o Príncipe Dom Duarte Nuno, Duque de Bragança e Chefe da Casa Real de Portugal; o Príncipe Dom João (1916-2005), casado com a nobre egípcia Fátima Scherifa Chirine, e, em segundas núpcias, com a dama brasileira Teresa Silva Leite; e a Princesa Dona Thereza (1919-2011), que foi a última neta viva da Redentora e do Conde d’Eu, desposada pelo industrial luso-espanhol Ernesto Martorell y Calderó.

Ainda em meados da década de 1920, após ter sido revogado o injusto banimento da Família Imperial, o Príncipe Dom Pedro de Alcântara se transferiu definitivamente, com a esposa e os filhos, para o Brasil, fixando residência em Petrópolis, sua cidade natal, onde viveram no Palácio do Grão-Pará, um anexo do Palácio de Verão (atual Museu Imperial de Petrópolis). Seu pai, o Conde d’Eu, havia desejado muito fixá-lo no Castelo d’Eu, propriedade adquirida pela Família Imperial na Normandia, França, pois desejava que seu filho primogênito, afastado da sucessão ao Trono do Brasil, estabelecesse um novo Ramo da Casa Real Francesa, os Orleans-Eu. Entretanto, o Príncipe Dom Pedro de Alcântara, após a morte do pai, tão logo que pôde, preferiu retornar ao Brasil, terra onde nascera e pela qual conservava profunda nostalgia.

A descendência do Príncipe Dom Pedro de Alcântara e da Princesa Dona Elisabeth constitui, portanto, o Ramo não-dinástico da Família Imperial Brasileira, permanecendo sua condição de Príncipes e Princesas, com o tratamento de Altezas Reais, desde que nascidos de matrimônios legítimos, celebrados de acordo com o rito da Igreja Católica.

- Baseado em trecho do livro “Dom Pedro Henrique, o Condestável das Saudades e da Esperança”, do Prof. Armando Alexandre dos Santos.

Foto: SS.AA.RR. o Príncipe Dom Pedro de Alcântara e a Princesa Dona Elisabeth de Orleans e Bragança e seus quatro filhos mais novos, os Príncipes Dom Pedro Gastão e Dom João e as Princesas Dona Maria Francisca e Dona Thereza de Orleans e Bragança, na residência da família, o Palácio do Grão-Pará, em Petrópolis; a primogênita, a Princesa Dona Isabel, já havia se casado com o Príncipe Henrique de Orleans, Conde de Paris e Chefe da Casa Real da França, e, portanto, residia na Europa. Do casal e de seus filhos varões descende o Ramo não-dinástico da Família Imperial Brasileira, sem direitos ao Trono do Brasil.

O BOM HUMOR NA CORTE

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Dom Francisco de Almeida, Conde de Galveias, foi uma das figuras mais simpáticas da Corte luso-brasileira. Era desleixado, e raramente se barbeava. Em um dia de festa, quando se apresentou perante o Rei Dom João VI com a barba crescida, este lhe disse:

– Mas, Dom Francisco, nem hoje, dia de meus anos, fizeste a barba?

Ao que o bem-humorado cortesão retrucou:

– Por que não fez Vossa Majestade anos anteontem, que foi o dia em que me barbeei?

- Baseado em trecho do livro “Revivendo o Brasil-Império”, de Leopoldo Bibiano Xavier.

Retrato: S.M.F. o Rei Dom João VI de Portugal, Brasil e Algarves (1767-1826).

O CASAMENTO DO FUTURO IMPERADOR DO BRASIL

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O Príncipe Dom Pedro Henrique de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial do Brasil de 1921 a 1981, casou-se em 19 de agosto de 1937, com a Princesa Maria da Baviera, que passou a ser intitulada Princesa Consorte do Brasil. A noiva era filha do Príncipe Francisco da Baviera e de sua esposa, a Princesa Isabel de Croÿ, e neta de Luís III, último Rei da Baviera.

O casamento repercutiu muito nos meios monárquicos de vários países europeus, e foi igualmente comemorado pelos monarquistas brasileiros, existindo, nos arquivos da Casa Imperial do Brasil, numerosas manifestações de regozijo pelo fato. Por amor à brevidade, transcrevemos na íntegra apenas uma notícia, extraída do periódico “L’Action Française”, de Paris, em sua edição de 26 de agosto de 1937, e reproduzida, entre outros, pelo “Correio Imperial”, publicação monarquista do Recife, a 22 de setembro daquele ano, sob o título “O casamento do futuro Imperador do Brasil”:

“Um casamento principesco – O casamento do S.A.R. o Príncipe Henrique de Orleans-Bragança, pretendente ao Trono do Brasil, com S.A.R. a Princesa Maria da Baviera, filha de S.A.R. o Príncipe Franz da Baviera e sobrinha de S.A.R. o Príncipe Real Ruperto, foi celebrado ontem pela manhã, às 11 horas, na capela do Castelo de Nynphenburg, a 5 quilômetros da capital bávara, por Monsenhor Miguel Faulhaber, Arcebispo de Munique.

Numerosas personalidades pertencentes às Casas Reais da Espanha e da Baviera fizeram parte do cortejo.

À frente do cortejo nupcial iam o Príncipe Real Ruperto da Baviera e a esposa, e Sua Majestade o Rei de Espanha, Afonso XIII.

A Princesa Maria da Baviera foi conduzida ao altar pelo Príncipe Franz, ao passo que seu noivo, Príncipe Henrique, dava o braço a S.A.R. a Princesa Luísa de Orleans.

Formavam o cortejo o Duque de Wurtemberg, com a Princesa Luísa Ferdinanda; S.A.R. o Príncipe Luiz Ferdinando e a Duquesa de Wurtemberg; S.A.R. o Arquiduque Jorge da Áustria e a Princesa Helmtrude da Baviera; o Príncipe Alberto da Baviera, o Príncipe das Astúrias, a Princesa das Astúrias, a Princesa de Saxe, como numerosas personalidades; o Príncipe Czartorisky e a Princesa Dolores de Bourbon, recentemente casados, realçaram a cerimônia com suas presenças.

Antes da cerimônia propriamente dita, o Cardeal Faulhaber salientou o alto valor moral do Sacramento do Matrimônio na religião católica, e comparou-o com ‘o dos países onde o casamento é considerado apenas como uma proteção à raça’.

Monsenhor Faulhaber leu uma carta de Mons. Eugenio Pacelli, Secretário de Estado de S.S. o Papa Pio XI, transmitindo a bênção concedida pelo Santo Padre aos jovens esposos. Depois de assistirem à Missa, os noivos regressaram, com seus convidados, ao castelo para almoçar.”

Nesta notícia, que transcrevemos com algumas de suas pequenas incorreções, há um pormenor muito simpático que vale destacar: o Cardeal Faulhaber, grande amigo do Chefe da Casa Imperial e da Princesa Consorte do Brasil, estava conduzindo, naquela época, uma corajosa resistência católica contra o regime nazista, então todo poderoso na Alemanha. O heroico Cardeal aproveitou para, criticando países “onde o casamento é considerado apenas como uma proteção à raça”, lançar uma farpa bem dirigida ao regime nazista.

Da união do Príncipe Dom Pedro Henrique e da Princesa Dona Maria, que durou 44 anos, até a morte do primeiro, resultaram doze filhos: os Príncipes Dom Luiz (atual Chefe da Casa Imperial do Brasil), Dom Eudes, Dom Bertrand (atual Príncipe Imperial do Brasil), Dom Pedro de Alcantara, Dom Fernando, Dom Antonio (atualmente terceiro na linha de sucessão ao Trono do Brasil), Dom Francisco e Dom Alberto e as Princesas Dona Isabel (atualmente sexta na linha de sucessão), Dona Eleonora (Princesa de Ligne pelo casamento; sétima na linha de sucessão), Dona Maria Thereza (Senhora Johannes Hessel de Jong) e Dona Maria Gabriela de Orleans e Bragança.

- Baseado em trecho do livro “Dom Pedro Henrique, o Condestável das Saudades e da Esperança”, do Prof. Armando Alexandre dos Santos.

Foto: casamento de SS.AA.II.RR. o Príncipe Dom Pedro Henrique de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial do Brasil, e da Princesa Consorte do Brasil, Dona Maria da Baviera de Orleans e Bragança; da esquerda para a direita, S.A.I.R. a Princesa Imperial Viúva do Brasil, Dona Maria Pia de Bourbon-Sicílias de Orleans e Bragança, mãe do noivo; S.A.R. o Príncipe Francisco da Baviera, pai da noiva; os noivos; S.A.R. a Grã-Duquesa Carlota de Luxemburgo; S.A.R. a Princesa Isabel de Croÿ, mãe da noiva; na fileira de trás, S.A.R. a Princesa Dona Isabel de Orleans e Bragança, Condessa de Paris, prima-irmã do noivo; , S.A.R. o Príncipe Henrique de Orleans, Conde de Paris; e S.M. o Rei Afonso XIII da Espanha.

A ORDEM DE MALTA

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A Ordem de Malta – oficialmente a Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta, ou Cavaleiros Hospitalários – foi fundada por volta do ano 1048, como uma ordem monástica, cujo objetivo era auxiliar os peregrinos e enfermos e acolher os indigentes.

Em 1113, através de uma bula do Papa Pascoal II, a Ordem se tornou isenta da Igreja Católica e, sob a liderança do Beato Gerardo Tum, transformou-se em uma ordem de cavalaria religiosa e militar, sendo responsável por defender os enfermos e os territórios cristãos da Terra Santa. No ano de 1291, com a perda de São João d’Acre – último baluarte da Cristandade na Terra Santa –, a Ordem se restabeleceu na ilha de Chipre, ocupando também, a partir de 1310, a ilha de Rodes, onde adquiriu soberania territorial.

A fim de proteger a Cristandade, a Ordem formou uma grande frota militar; governada por um Grão-Mestre, intitulado Príncipe de Rodes, e por um Conselho Soberano, cunhava moedas e mantinha relações diplomáticas com outros Estados. Em diversas ocasiões, os Cavaleiros impediram ataques dos turcos otomanos; contudo, tiveram de capitular e deixar a ilha de Rodes em 1523, diante de um ataque do poderoso exército do Sultão Solimão, o Magnífico. Na ocasião, o Sacro Imperador Carlos V concedeu, como feudo soberano, as ilhas de Malta, Gozo e Comino, bem como a cidade de Trípoli, à Ordem, que, em 1530, mediante autorização do Papa Clemente VII, tomou posse de Malta.

No ano de 1565, durante o Grande Assédio, os otomanos foram derrotados pelos Cavaleiros, e a frota da Ordem de São João, que logo passou a ser chamada de Ordem de Malta, estabeleceu-se como uma das mais poderosas frotas do Mediterrâneo, contribuindo para a derrota definitiva das forças otomanas, durante a Batalha de Lepanto, em 1571.

Contudo, em 1798, a ilha de Malta foi ocupada por tropas da Primeira República Francesa, sob a liderança do então General Napoleão Bonaparte, durante sua campanha no Egito. Os Cavaleiros, impedidos por suas leis de lutar contra outros cristãos, viram-se obrigados a abandonar sua ilha, que, em 1802, seria ocupada pelos britânicos. Apenas em 1834 a Ordem conseguiu se estabelecer, de forma definitiva, em Roma, onde adquiriu o Palácio de Malta, que possui privilégio de extraterritorialidade. Assim, sua missão principal voltou a ser o serviço aos pobres e enfermos.

Tradicionalmente, os Cavaleiros de Malta eram membros da realeza e da nobreza católicas da Europa; atualmente, ainda que os Cavaleiros de Honra e Devoção tenham que ter quatro avós nobres em 200 anos ou que a varonia de seu avô paterno tenha pelo menos 450 anos de sangue azul, as classes mais baixas de cavalaria admitem pessoas de todas as classes sociais e de todos os Continentes, exigindo apenas méritos e espírito altruísta de seus membros. Além disso, a Ordem de Malta jamais deixou de ser considerada soberana, mantendo relações diplomáticas com 104 países e 17 organizações internacionais, tendo uma representação permanente na Organização das Nações Unidas.

A Família Real Portuguesa sempre manteve vínculos estreitos com a Ordem de Malta, tendo sido seu 11º Grão-Mestre Dom Afonso de Portugal, filho natural do primeiro Rei de Portugal, Dom Afonso Henriques; e enquanto reinou a Dinastia de Avis, por várias vezes Príncipes da Casa Real ocuparam a Sede do Priorado do Catro, extenso e valioso senhorio, abrangendo vasta extensão do território português, que foi cedido em 1232, pelo Rei Dom Sancho II, aos Cavaleiros da então Ordem de São João de Jerusalém, em recompensa por seu auxílio na luta contra os mouros.

Entre 1527 e 1555, serviu como Prior do Catro o Infante Dom Luís, Duque de Beja, filho do Rei Dom Manuel I, o Bem-Aventurado, em cujo reinado foi descoberto o Brasil. No período da Dinastia de Bragança, as relações entre a Família Real e o Priorado se tornaram permanentes; em 1789, o Papa Pio VI determinou que um Príncipe da Casa Real de Portugal fosse sempre o detentor do título de Grão-Prior do Catro. O Rei Dom Pedro III, esposo e tio da Rainha Dona Maria I, bem como seu filho, o nosso querido Rei Dom João VI, sempre demonstraram grande afeição pela Ordem de Malta.

Após a Independência do Brasil e a fundação de nosso Império, a Família Imperial Brasileira manteve os vínculos com a Ordem, tendo sido o Imperador Dom Pedro I Grão-Prior do Catro desde 1799, e vários retratos de nosso primeiro Soberano independente mostram o uso constante que fazia, pondo o hábito pendente da Ordem de Malta sob a insígnia da Ordem do Tosão de Ouro. Sua esposa, a Imperatriz Dona Leopoldina, havia sido admitida na Ordem em 1817, como Dama Grã-Cruz de Honra e Devoção. Igualmente, o filho do casal, o Imperador Dom Pedro II, foi investido Bailio Grã-Cruz de Honra e Devoção, a mais alta graduação da Ordem, no ano de 1846, enquanto sua consorte, a Imperatriz Dona Teresa Cristina, foi, a partir de 1878, Dama Grã-Cruz de Honra e Devoção, como retribuição do então Grão-Mestre da Ordem, Príncipe Frei Giovanni Battista Ceschi a Santa Croce, que havia sido feito Cavaleiro Grã-Cruz da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo pelo Imperador.

Curiosamente, nem a Princesa Dona Isabel, a Redentora, nem seu esposo, o Conde d’Eu, e os três filhos do casal, os Príncipes Dom Pedro de Alcântara, Dom Luiz e Dom Antonio, ingressaram na Ordem de Malta, e somente em 1972 um membro da Família Imperial Brasileira, do Ramo não-dinástico de Petrópolis, o Príncipe Dom Pedro Gastão de Orleans e Bragança, tornou-se Bailio Grã-Cruz de Honra e Devoção, após ter recepcionado, em 1966, em sua residência, o Palácio do Grão-Pará, em Petrópolis, o Grão-Mestre Príncipe Frei Angelo de Mojana di Cologna, que estava em visita oficial ao Brasil.

Já no ano de 1974, foi a vez do próprio Chefe da Casa Imperial do Brasil, o Príncipe Dom Pedro Henrique de Orleans e Bragança, ser admitido, igualmente na condição de Bailio Grã-Cruz de Honra e Devoção, na Soberana Ordem de Malta, além de ter recebido, posteriormente, a Cruz de Devoção. Por várias vezes, Sua Alteza participou, ao lado do Presidente da República, Dr. Juscelino Kubitschek, da celebração da Missa anual da Ordem, no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro. Sua esposa, a Princesa Consorte e Princesa Mãe do Brasil, Dona Maria da Baviera de Orleans e Bragança, também foi, assim como as ancestrais de seu esposo, Dama Grã-Cruz de Honra e Devoção.

No dia 30 de outubro de 2002, dois filhos do Casal Imperial, os Príncipes Dom Luiz de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial do Brasil, e Dom Bertrand de Orleans e Bragança, Príncipe Imperial do Brasil, ingressaram na Ordem de Malta de forma singular: em cerimônia celebrada em Roma, na sede da Ordem, o Palácio de Malta, e presidida diretamente pelo então Grão-Mestre, Príncipe Frei Andrew Bertie, seguida de um memorável almoço de comemoração oferecido pelo saudoso Marquês Luigi Conda Nunziante de San Ferdinando, nobre italiano e grande amigo dos Príncipes brasileiros.

Por sua vez, o Príncipe Dom Antonio de Orleans e Bragança, terceiro na linha de sucessão ao Trono, ingressou como Bailio Grã-Cruz de Honra e Devoção da Ordem de Malta em 24 de junho de 2010, dia de seu 60º aniversário e também festa litúrgica de São João Batista, Padroeiro da Ordem, em homenagem a quem o Príncipe Dom Antonio recebeu seu segundo prenome, João. O ingresso de Sua Alteza se deu durante Missa Solene no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, celebrada pelo Abade Dom Roberto Lopes, também Capelão Conventual da Ordem. À celebração, seguiu-se jantar na Casa Julieta Serpa, realizado em benefício da obras assistenciais da Ordem de Malta na cidade do Rio de Janeiro. O Príncipe Dom Antonio atualmente também serve como Hospitalário para os Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo.

Assistiram à investidura de Sua Alteza, além de seu irmão, o Príncipe Imperial Dom Bertrand, sua esposa, a Princesa Dona Christine de Ligne de Orleans e Bragança, e dois filhos do casal, o Príncipe Dom Rafael e a Princesa Dona Maria Gabriela, e vários sobrinhos, bem como o Conde Antoine de Nicolaÿ, neto da Princesa Dona Pia Maria de Orleans e Bragança, Condessa René de Nicolaÿ pelo casamento, tia do Príncipe Dom Antonio.

Outro irmão do Chefe da Casa Imperial, do Príncipe Imperial e do Príncipe Dom Antonio, o Príncipe Dom Eudes de Orleans e Bragança, também ingressou como Bailio Grã-Cruz de Honra e Devoção da Ordem de Malta, no dia 24 de junho de 1974. E também cabe destacar que outro descendente do Imperador Dom Pedro II, Dom Carlos Tasso de Saxe-Coburgo e Bragança, é membro proeminente da Ordem, também como Bailio Grã-Cruz de Honra e Devoção, além de um dos Presidentes de Honra da Associação de São Paulo e Brasil Meridional da Ordem, tendo ocupado a presidência efetiva da entidade entre 1960 e 1965.

Foto: S.A.R. o Príncipe Dom Antonio de Orleans e Bragança, Príncipe do Brasil e terceiro na linha de sucessão ao Trono, durante sua cerimônia de investidura como Bailio Grã-Cruz de Honra e Devoção da Ordem de Malta, em 24 de junho de 2010, dia de seu 60º aniversário e também festa litúrgica de São João Batista, Padroeiro da Ordem, no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro.