sábado, 30 de janeiro de 2016

O ZOO DO BARÃO

Cartão Postal do antigo Zoo

No fim do século XIX o Rio de Janeiro tinha virado uma metrópole mundial.

Após uma viagem a Paris, na década de 1870, o empresário João Batista Viana Drummond, o Barão de Drummond, ficou impressionado com o urbanismo daquela capital à época e, na qualidade de amigo do Imperador Dom Pedro II, adquiriu a antiga Fazenda dos Macacos à Princesa Dona Isabel por 120 contos de réis em 1872, no atual bairro de Vila Isabel, implantando um grande projeto de urbanização que viria a culminar, em 16 de janeiro de 1888, na inauguração de um jardim zoológico. No mesmo ano, por tais benfeitorias, o empresário recebeu o título de Barão de Drummond.

O amigo de Pedro II foi um abolicionista que alforriou todos seus escravos antes da Lei Áurea. Deu nome de pessoas e acontecimentos importantes do movimento contra a escravatura às primeiras ruas do bairro que urbanizou (Boulevard 28 de Setembro, por exemplo, é uma referência à data de assinatura da Lei do Ventre Livre, de 1871, que considerava livres os filhos de escravos nascidos após aquele dia). Homenageou a Princesa Dona Isabel no nome da localidade, “inaugurada” em janeiro de 1872, no local onde outrora fora a Quinta dos Macacos. De quebra, ainda levou o bonde para a região.

No entanto, seu empenho por uma causa tão importante e a criação de um dos bairros mais icônicos do Rio são menos lembrados diante de outro feito: o lançamento do jogo do bicho. A jogatina está diretamente ligada à história do primeiro zoológico da Cidade Maravilhosa. Drummond importava animais aos montes. Em 1884, decidiu fazer do hobby um trabalho. Pediu licença para instalar o zoológico e foi atendido. Em quatro anos realizou a construção no Caminho do Goiabal (atual rua Visconde de Santa Isabel).

Interior do Antigo Zoo atualmente.

Elefantes, leões e girafas eram as grandes atrações do local inaugurado em 6 de janeiro de 1888. Contudo, havia, também, espaço para bichos tipicamente brasileiros, como jacarés e macacos. Muitos autores defendem que, com a Proclamação da República, em 1889, veio o fim da ajuda de custo do Império ao empreendimento do barão. Diante deste panorama, nasceu o jogo do bicho”, com o objetivo de alavancar a arrecadação. Porém, o professor de História Felipe Magalhães, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, autor do livro “Ganhou, leva! O jogo do bicho no Rio de Janeiro”, discorda dessa tese. “Não há nenhum documento que comprove que o Jardim Zoológico fosse subvencionado pelo Governo Imperial. É importante pensar no local como um empreendimento que nasce com a perspectiva de dar modernidade ao bairro de Vila Isabel. E como o Barão de Drummond era empresário, a jogatina surge com a visão de lucrar ainda mais. Quem criou essa história, na minha opinião, foi Angelo Agostini (o grande cartunistas da época). Ele fazia charges atacando o Barão de Drummond. Posteriormente, Luís Edmundo escreve o livro ‘O Rio de Janeiro do Meu Tempo’, e repete a tese. No entanto, não há provas”, afirma.

O jogo do bicho original era simples. Diariamente um animal de pequeno porte era pendurado em uma gaiola coberta por um pano. Cada ingresso dava direito a um bilhete que continha a figura de determinada espécie. No final do dia o bicho era revelado e o resultado divulgado. A fórmula rapidamente caiu no gosto do povo. O Barão, esperto que só, notou o sucesso e abriu uma loja na Rua do Ouvidor, no Centro, para vender os tíquetes. Dessa forma, a população não precisava ir até Vila Isabel para participar da jogatina. O bicho virou contravenção penal a partir de 1941, quando os jogos “que dependem exclusivamente ou principalmente da sorte” foram proibidos, com as exceções conhecidas. Mergulhado na clandestinidade, foi adotado pelo crime organizado e segue como uma marca da cultura carioca.

O Barão morreu em 1897. Em 1984, seria homenageado na composição de Bicalho para o Império Serrano que celebrava malandros históricos cariocas: “Barão esperto foi Drummond/ Criou um jogo além de bom/ E colocou a bicharada/ na cabeça da moçada”.

Ao longo dos anos, no entanto, com a sucessão das administrações e diante das dificuldades, o antigo zoológico viu-se obrigado a fechar suas portas – o que ocorreu, de fato, na década de 1940. Cinco anos depois, Getúlio Vargas levou o zoo para outro local, a Quinta da Boa Vista (residência Imperial).

O local deste primeiro jardim zoológico foi recentemente recuperado pela Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, sendo renomeado como Jardim da Princesa.

Ingresso do Antigo Zoo

FONTE: blogs.odia.ig.com.br/rio-450-anos/historias-do-rio/barao-esperto-foi-drummond

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