quarta-feira, 27 de junho de 2018

EM UM ESTALO DE DEDOS


"O Manifesto Imperial de 30 de outubro de 1905 transformou a Rússia de uma autocracia absoluta em uma monarquia semiconstitucional. Prometia ao povo russo “liberdade de consciência, expressão, assembleia e associação”.

Garantia um parlamento eleito, a Duma, e que “nenhuma lei entraria em vigor sem o consentimento da Duma”. Não ia tão longe quanto a monarquia constitucional da Inglaterra; o czar mantinha suas prerrogativas de decisão sobre assuntos externos e de defesa, e o poder total de nomear e demitir ministros.

Mas o manifesto fez a Rússia voar, com grande rapidez, por cima de um difícil terreno político que a Europa ocidental levou séculos para atravessar. Witte agora se metera numa situação complicada. Tendo forçado um soberano relutante a autorizar uma Constituição, esperava-se que ele a fizesse funcionar.

Para desespero de Witte, ao invés de melhorar, a situação piorou. A direita o odiava por ter degradado a autocracia, os liberais não confiavam nele e a esquerda temia que a revolução esperada lhes escapasse das mãos.

Assim, irromperam pogroms contra os bodes expiatórios de sempre, os judeus, e outras minorias, e, vendo o manifesto como fraqueza, manifestações por independência irromperam pelo país, assim como violência pelas greves gerais, inspiradas pelos bolcheviques, e pela limitação dos poderes da polícia.

Enquanto isso, Nicolau esperava impaciente que seu experimento com o constitucionalismo desse resultados. À medida que Witte tropeçava, ele se tornava mais amargo. Antes de outubro de 1905, não havia partidos políticos na Rússia além do Social Democrata e do Revolucionário Socialista, ambos revolucionários e agindo na clandestinidade.

Nessas circunstâncias, era notável que dois partidos liberais sérios surgissem subitamente: o Constitucional Democrata, ou Cadete, liderado pelo historiador Paulo Miliukov, e o Outubrista, assim batizado por sua adesão ao manifesto de outubro de 1905, liderado por Alexandre Guchkov.

Entretanto, o abismo de entendimento entre monarquia e parlamento era grande demais. A Duma foi recebida pelo czar na sala do trono do Palácio de Inverno. Não foi uma ocasião promissora. Montes de policiais e soldados mantiveram-se de prontidão na praça defronte ao palácio.

Os deputados recém-eleitos, com trajes simples, permaneceram de um lado do salão, olhando fixamente para o enorme trono de ouro e carmesim, encarando a imperatriz e suas damas em vestidos formais da corte. Do outro lado, estavam a corte e os ministros, dentre eles o conde Fredericks.

“Os deputados”, ele disse, “dão a impressão de uma gangue à espera de um sinal para se atirarem sobre os ministros e lhes cortarem a garganta. Que rostos perversos! Eu nunca mais porei os pés no meio dessa gentalha.”

Os 524 membros mal haviam tomado seus lugares no salão do Palácio Tauride quando formularam um agressivo e devastador “Discurso ao Trono”. Para horror de Nicolau, exigiam sufrágio universal, reforma agrária radical, libertação de todos os prisioneiros políticos e demissão de todos os ministros nomeados pelo czar em favor de ministros aceitáveis pela Duma.

A um comando de Nicolau, os pedidos foram rejeitados. Estupefato com a cena de revolta, Nicolau estava mais do que decidido a acabar com a Duma, e, dias depois, as portas do Palácio Tauride foram fechadas e publicaram um decreto imperial dissolvendo a Duma.

Muito a contragosto, Nicolau abandonou seu plano de eliminar a Duma, pois sabia que isso significaria mais tumulto, e deu permissão para a eleição de um segundo parlamento."

Fonte: Nicolau e Alexandra, Robert K. Massie

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